De onde vem este barulho?

Pessoal e transmissível

Parece patético. Fazer nascer um blogue na era do Facebook. (Como é que o vais alimentar se nem aqueles em que escreves consegues satisfazer?). Pois, sou muito antiga, eu. Para já desencantei dos arquivos um texto de quando era…trintona.

” Às vezes esqueço-me. Julgo-me ainda com vinte e picos, cheia de vontade de mudar o mundo sem me mudar a mim: a acreditar muito nas pessoas, menos nos políticos, muito nos jornais. Ou então ainda antes, muito menina, a falar com as paredes que me subsituiam os irmãos imaginários até à chegada de uma verdadeira, quando já andava na terceira classe. Se fechar os olhos consigo voltar à velha cozinha da minha avó e sentar-me no colo dela, a ouvir histórias e a aprender canções. “Tum-Tum vai lavar a perna/tum, tum, vai lavar/ tum, tum vai lavar a perna à beira do mar”. Ouço-lhe o estalar dos dedos e vejo-a a correr atrás da vaca que fugiu, cheia de energia e ali perto do meu avô, que vai acima da oliveira com a mesma destreza com que pisa as uvas. Nesse tempo são eternos, assim. Ele não vai ter Alzheimer, e ela nada.

Se os fechar outra vez, sinto o cheiro que emanava da mala de viagem do meu pai, em cada regresso à terra, em cada volta a casa, pelo Natal, pela Páscoa, pelo Verão. Vejo outra vez as bonecas que trazem um disco e falam espanhol. E a minha mãe sempre sentada à máquina de costura, como hoje. Sem rugas nem cabelos brancos, como agora. Mais nova mas menos jovem, é um facto. E as minhas tias todas, a alegria dos Natais e das descamisadas, das matanças e das vindimas. “Ninguém sabe o que eu achei/na casa da brincadeira/uma carta de namoro/ debaixo de uma cadeira”
Do meu padrinho e do vento que me batia na cara quando me levava sentada na mota. Nunca poderei imaginar o desfecho que terá a vida dele. Nessa altura o mundo é tão meu quanto é verdadeira a história da Gabriela e do Nacibe, mesmo que a preto e branco, embrulhada em novela.
Há dias que me lembro de mim, das várias que eu fui. De quando queria ser hospedeira mesmo morrendo de medo de andar de avião. Como naquele ano em que os meus pais decidiram que era hora de vivermos todos juntos e que por isso, aos cinco anos, era boa altura para emigrarmos também nós duas – eu e a minha mãe. Só que deu-me um ataque de pânico e tudo o que restou desse projecto foi um passaporte nunca usado. E depois ele voltou, e foi melhor assim. Não tive de aprender em alemão.
Depois a adolescência, a juventude. Agora quero ser missionária, agora vou ser cantora. Quero dançar de sábado à noite até domingo à tarde, entre os bailes e as matinés. Agora canto em noites de fado, agora faço teatro, agora dou catequese, agora vou trabalhar para a rádio. Cruzo-me com as notícias e nunca mais as hei-de largar, nem elas a mim. Bem-feito.
E depois trabalho num jornal e um dia entra-me por aquela porta dentro o meu homem. Eu não sei, mas é aquele rapaz que vai ser o pai dos meus filhos.
Mãe. Eu sou a mãe deles.
E na escola chamam-me mãe, e no médico também sou a mãe, às vezes mãezita. Só volto a ter identidade própria quando olho para o BI, enquanto não me render ao cartão do cidadão. E esse, não engana: 13 de Novembro de 1972. É hoje. Faço 37 anos.
 
13 de Novembro de 2009

 

 
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