Esta parte, aquela parte

Pessoal e transmissível

A E. foi-se embora no sábado. Levou com ela o filho de 4 anos e deixou a filha de 18. Coração partido, a vida aos pedaços. Era assim desde que o marido teve de emigrar, outra vez, nesta sangria que deixa Portugal cada vez mais pobre, os velhos cada vez mais sós, as ruas de casas fechadas, outra vez.

E ela, que tinha voltado há dez anos ao país que ainda chama de seu, que sonhou com comida na mesa+saúde+sol, fechou na gaveta os anos de experiência como profissional de várias áreas e recolheu a um bairro nobre de Paris, para ser porteira de um prédio: o emprego que as tias do meu homem tinham, antes da reforma. É isso que faz a minha amiga P., desde há quase dois anos, outra vez em França também, depois de ter fechado o salão de estética sempre na mira dos impostos e da banca.

De cada vez que alguém vai embora é como se a porta se fechasse um bocadinho mais. Do lado de cá crescem a pobreza (cada vez maior e por isso mais envergonhada), a solidão dos avós, os sentimentos xenófobos, o individualismo de sobrevivência.

Não sei até quando e durante quanto tempo seremos capazes de remar contra a maré, os que ainda querem ficar, porque não podem partir. Mas sei que todos os dias, quando desço as escadas do prédio, há várias portas sempre fechadas em cada um dos andares. Porque há um dia em que nos cansamos de empurrar.

É preciso começar pelo princípio

Pessoal e transmissível

Lembro-me bem do nosso primeiro encontro, que não foi lá grande coisa: ela tinha acabado de lançar o seu primeiro livro, era então directora do Centro de Saúde, eu estava num dia de mau-feitio ao mais alto nível, como me acontecia muitas vezes naquele tempo agridoce em que dirigi o jornal. Ela entrou lá para colocar um anúncio, pois que ninguém “nosso” tinha ido ao lançamento. Expliquei-me, expliquei-lhe como funcionava uma redacção com poucos rescursos, situação agravada aos fins-de-semana. Entendemo-nos e fomos caminhando, cada uma na sua vida.

Há dez anos muita coisa era diferente na minha cidade. Muitas pessoas continuam nos mesmos lugares, cristalizadas. E depois há outras, como ela, com coragem de publicar pedaços de vida em livro, outra vez.

Numa tarde de Dezembro apanhou-me, ao telefone, no meio da distribuição de cabazes de Natal. Tinha uma coisa para me pedir. Que ia publicar um novo livro, cuja receita haveria de reverter a favor do equipamento de um Centro de Dia para doentes de Alzheimer. O lançamento de “Lá, no mundo da Lua” é amanhã. E o que a drª Isabel Gonçalves tinha para me pedir era isto, afinal. Chamam-lhe prefácio, os editores. Quando leu o que lhe enviei quis saber quando é que editava um livro meu. Há-de ser um dia destes, se não for antes.

Lá, no mundo de Isabel

O Natal de 1968 trouxe com ele uma revelação mágica: numa rua de Coimbra, à mesa da consoada, a pequena Isabel descobriu na dureza da vida lá fora a inspiração que, sem saber, a acompanhava desde sempre: escreveu nessa noite o seu primeiro poema, que versava o contraste entre a mesa farta da família – mesmo num tempo em que o dinheiro não chegava para presentes – e a miséria profunda de Portugal. E ela, a segunda dos cinco filhos de um casal de assalariados, percebeu naquele instante que, afinal, as dificuldades da família em alimentar uma casa onde moravam 10 pessoas, significavam pouco. “Lá fora havia gente sem nada. Sem nada para comer. E nós estávamos ali, perante uma mesa repleta de iguarias”. E foi dessa tristeza alheia que se fez a poesia de Isabel Gonçalves, quando tinha pouco mais de 12 anos de idade.

À distância do tempo, talvez aquela noite de Natal tenha acontecido à laia de premonição. A mãe, a médica, a pequena-grande mulher que é amiga de todas as horas, haveria de continuar a escrever poemas pela vida fora, exorcizando medos e tristezas, cantando alegrias, numa catarse completa. É ela  própria que o reconhece, no momento em que selecciona pedaços da vida para transformar em livro. Foi assim também com “Momentos”, a sua primeira obra, publicada em 2002. Dez anos é muito tempo. É muita vida que corre, é muito caminho trilhado. E não será fácil transpor a barreira da privacidade e deixar que a alma salte para as páginas de um livro. Foi nesse resguardo que Isabel Gonçalves viveu, até decidir partilhar com o mundo cada poema. À mesa de um café de Pombal – a vila que a acolheu em 1981, a cidade que ajudou a construir, com toda a sua intervenção pública – diz-me que sabe de cor o dia, o momento, as circunstâncias de cada poema. “Como se fosse uma fotografia”. O olhar ilumina-se e fala do Hugo e do Pedro, os filhos já feitos homens, eternos poemas-meninos de sua mãe. Depois há os outros: aqueles por quem corre e se cansa, por quem engana o sono, por quem troca voltas à vida. Os outros, os que precisam. E então volta a lembrar-se de como a poesia pode ser solidária, contribuindo para causas. Como no tempo em que era menina e a descobria como forma de libertar o amor ao próximo. Lá, no seu mundo da lua, continua a ser 68. É Maio, talvez. Há dentro dela uma revolução constante, que dará amor e flores ao mundo inteiro. Afinal, a vida é isto: poesia intensa.

 

Paula Sofia Luz,

Jornalista

 

Tenho um filho deputado e ainda aqui estou

Pessoal e transmissível

Contados os votos, na sexta-feira, a lista que encabeçou levou mais uma abada. Nada que abale as firmes convicções de um político-de-primeira-água. E como de costume, lá foi à sessão da escola, esta manhã, acompanhado das miúdas da lista. Já em casa, irrompeu pela cozinha com ar displicente.

– fui o mais votado. Vou (outra vez) à sessão distrital, mais a B e a F. Agora lá na escola até me chamam senhor deputado, só na brinca…

Desarregacei as mangas da camisola e deixei de picar os alhos, para não ter ideias. A minha amiga Graça diz que algumas se pagam cá, neste mundo. Escusava de ser assim…tão cedo.

 

 

Maria, avó

Pessoal e transmissível

Fez ontem (hoje) cinco anos que a avó partiu. Não era minha de sangue, mas era de coração. Sentimos-lhe a falta até hoje, com toda a pena de que não tenha conhecido a nossa Leonor.

Nos dias que se seguiram o Daniel Abrunheiro publicou um poema de amizade ao meu homem, neto-filho da avó Maria. Fui revisitá-lo agora, para memória futura.

Uma Volta a Vermoil, 
Certa Quinta-Feira
Caramulo, noite de 18 de Janeiro de 2008
Para o Daniel Ponte, Filho-Neto

À direita, na chuvinha, um quintal de erva.
Laranjeiras sobem do pátio por ourivesaria.
Nas costas, a igreja tange bronze gravado em cassete.
É o funeral da Senhora Avó, 
que Mãe de netos foi.

O silêncio calca os passos medidos do féretro.
A Junta de Freguesia diz que as campas não.
Que as campas não podem.
Não podem ter mais.
Ter mais do que dois metros de comprimento
por um de largura.
Até morrer tem de levar alvará
,sabe Deus lá.

A senhora olha de cera o último céu.
irmã do Daniel dá rosas:
rubras metade do ramo,
amarelas a outra.
É ouro de atirar à cova em sangue.

Na igreja, findo o serviço, o Daniel tenta a leitura.
A leitura sempre fez mal ao mundo.
As pessoas nunca deveriam nem ler nem morrer
nem viver para isso.

A Avó-Mãe, julgamos, teve uma vida feliz.
Um alvará feliz, julgamos.
Deu o coração todo contra a morte.
A morte só pôde levar o corpo,
há coisas que não leva antesde nos levar a nós,
os que julgamos,nós,os que damos,
amarelas,rubras,rosas de laranjeiras que sobem,
quando desce a chuva,
quinta-feira,era meio-dia e tal,
em Vermoil.