A importância de uma boa tripa

Pessoal e transmissível

Alguns dias depois da matança do porco (acho que é porca, mas não tenho a certeza), fui à Moita do Boi toda lampeira para ajudar a encher as chouriças (assim, no feminino, porque na minha aldeia o género leva sempre vantagem), coisa que não fazia desde que era muito menina.

Cheguei lá cheia de estilo, com as minhas luvas azuis da Vileda, uma camisola de meia manga para evitar desastres de vinha-de-alhos, e uma vontade de virar aquilo tudo em meia hora. A minha mãe fez um olhar de esgaio às luvas xpto, e mandou-me calçar um par daquelas descartáveis, que era melhor. Quem conhece a minha mãe sabe que é melhor não lhe discutir qualquer ordem. E pronto, lá começámos.

Aquilo faz-se com técnica: é preciso abrir a tripa, ajustá-la à enchedeira e…voilá, fazer deslizar a carne por aí abaixo.

Acontece que ao fim de poucos minutos já eu estava em desespero de causa. Aquilo escorregava por todos os lados. A minha mãe achava que o problema era a gordura da carne. Eu achava que era das luvas e comecei a trocar por um par novo de meia em meia hora. Um suplício. Eu a fazer um esforço para me lembrar de como são deliciosas as chouriças à nossa moda, a imaginar como haveriam de ficar magníficas no fumeiro e depois no prato, e aquilo a escorregar por todos os lados, a desenfiar-se a cada instante, e eu a dizer palavrões pela primeira vez nestes 40 anos em frente aos meus pais. Às tantas a minha mãe salvou-me daquilo quando se lembrou que a “minha” enchedeira era melhor que a dela e assim se conseguiria despachar em menos de…uma eternidade, vá.

Liguei ao meu homem e pedi-lhe que me fosse buscar mais cedo do que o previsto, pois que até tinha uma reunião ainda nessa tarde e era melhor preparar-me primeiro para ela. Ele foi. Com aquela assertividade que me enerva, percebeu logo: “o problema é da tripa”.

Que não, dizia a minha mãe. Que agora eram “da compra” e isso estava fora de questão. Eu na  verdade queria era pirar-me daquele pesadelo e do outro, que se iria seguir ao encontro do meu homem com seu sogro, por causa da crise no Sporting que faz o meu pai meter conversa com o genro, já de sorrisinho ao canto da boca.

Lavei as mãos daquilo e lá fui à minha vida. À noite, quis saber com a minha mãe como é ue acabara aquela luta de titãs com o alguidar da carne para os enchidos.

Ah, muito bem! Afinal o problema era das tripas! O pai foi buscar umas novas e a partir daí foi uma maravilha. Foi um instante.

Moral da história: para um projecto ser bem sucedido é fundamental um bom funcionamento da tripa.  Ou corremos o risco de passarmos a vida a encher chouriços.

Anúncios

One thought on “A importância de uma boa tripa

Penso que:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s