Maria, avó

Pessoal e transmissível

Fez ontem (hoje) cinco anos que a avó partiu. Não era minha de sangue, mas era de coração. Sentimos-lhe a falta até hoje, com toda a pena de que não tenha conhecido a nossa Leonor.

Nos dias que se seguiram o Daniel Abrunheiro publicou um poema de amizade ao meu homem, neto-filho da avó Maria. Fui revisitá-lo agora, para memória futura.

Uma Volta a Vermoil, 
Certa Quinta-Feira
Caramulo, noite de 18 de Janeiro de 2008
Para o Daniel Ponte, Filho-Neto

À direita, na chuvinha, um quintal de erva.
Laranjeiras sobem do pátio por ourivesaria.
Nas costas, a igreja tange bronze gravado em cassete.
É o funeral da Senhora Avó, 
que Mãe de netos foi.

O silêncio calca os passos medidos do féretro.
A Junta de Freguesia diz que as campas não.
Que as campas não podem.
Não podem ter mais.
Ter mais do que dois metros de comprimento
por um de largura.
Até morrer tem de levar alvará
,sabe Deus lá.

A senhora olha de cera o último céu.
irmã do Daniel dá rosas:
rubras metade do ramo,
amarelas a outra.
É ouro de atirar à cova em sangue.

Na igreja, findo o serviço, o Daniel tenta a leitura.
A leitura sempre fez mal ao mundo.
As pessoas nunca deveriam nem ler nem morrer
nem viver para isso.

A Avó-Mãe, julgamos, teve uma vida feliz.
Um alvará feliz, julgamos.
Deu o coração todo contra a morte.
A morte só pôde levar o corpo,
há coisas que não leva antesde nos levar a nós,
os que julgamos,nós,os que damos,
amarelas,rubras,rosas de laranjeiras que sobem,
quando desce a chuva,
quinta-feira,era meio-dia e tal,
em Vermoil.

 

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