E agora?

Pessoal e transmissível

Já me acontecera o mesmo no 15 de Setembro, que afinal não foi um episódio isolado. Andei dias, depois disso, em silêncio, a pensar naquilo. A minha azáfama no meio da organização foi sempre ruidosa, apenas entrecortada pelo silêncio triste da marcha. Ao meu lado seguia a senhora a quem o hospital corta nos medicamentos para o cancro. Atrás a professora que em Setembro ainda tinha a filha, jovem enfermeira, a seu lado. Mas entretanto emigrou.

Depois o casal desempregado com a filha bébé no carrinho. E quando dei por ela era a Sara, a passar para a frente com a faixa preta “O Povo é quem mais ordena”. Ao lado a Alexandra, na ponta a Mónica. Trabalhámos todas no mesmo lugar, em tempos, e tínhamos afinal muito mais em comum do que à partida se poderia julgar. Somos todas farinha do mesmo saco: filhos, contas para pagar, sonhos e vidas suspensas. Nós e tantos daqueles que se juntaram na tarde cinzenta de sábado, em Leiria, para gritar “Que se lixe a troika, o povo é quem mais ordena”. Mais tarde, um dia depois, na tv, Marcelo há-de dizer que pouco importa se os números têm mais ou menos milhares (respondendo assim àqueles que tentam, assustados, esvaziar a maré humana). “Era muita gente e pronto”.

Tal como em Setembro, precisei de tempo para ver as imagens e ler o que dizem os outros. Para deixar serenar as minhas emoções e recuperar as minhas forças, que ninguém disse que era fácil remar contra a maré. Descobrir amigos no meio da multidão, mesmo aqueles que não consegui encontrar naquela tarde. Lembrar-me dos abraços que dei a este, àquela, nos reencontros. E isso, nunca conseguirei explicar por palavras. Nem eles, estou certa.

Na tribo improvável que se juntou para organizar e ajudar a levantar as pessoas e colocá-las a andar, desde a Fonte Luminosa à estátua, desde a Heróis de Angola à Mouzinho de Albuquerque. Na toalha da D. Lucy (que lá, onde estiver há-de rir-se, entre a ironia e a felicidade, por nós) a suportar os blocos de apontamentos, os portáteis e os telefones, os contactos, as ideias, os bolos de cenoura na noite fria. Nas viagens entre Pombal e Leiria, nas gargalhadas da Karina. Na diplomacia do Nelson, o entusiasmo do Rui, os avisos do Peixoto, a teimosia colectiva.

Mãe, a reunião é de quê?

É para mudarmos o país, Leonor. Quando tiveres a idade do João também podes vir com a  mãe. Por agora basta que continues a brincar, feliz, entre os amigos. É isso que a mãe tem de garantir. Porque já conheci meninos que se enroscam, carentes, no primeiro estranho que lhes aparece. E não me esqueço.

De sábado,a razão deixa-me ficar este texto do Daniel Oliveira, que sintetiza bem o momento que estamos a viver. Mas o coração guardará uma moldura humana de gente mais velha que nova: aqueles que lutaram tanto pela liberdade, que conquistaram direitos, e que agora remexem nos bolsos à procura de tostões que alimentem filhos e netos desempregados. Em Setembro, éramos muitos também, mas mais novos. Nestes seis meses muitos partiram.

E agora? Agora vamos prosseguir o caminho. Quando um Governo não ouve temos de falar mais alto, gritar se for preciso. É isso que devemos aos nossos filhos. Ou alguma mãe que se preze entrega essa responsabilidade a estranhos?

Imagem

Os créditos são da @ Sofia Mota. A pancarta foi o meu homem que fez. A Sara, que a empunha, é a minha irmã.

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