Emília.

Pessoal e transmissível

O vento. Uma chuva fria a varrer Abril e uma tarde a anunciar magia para um grupo de idosos de Santiago de Litém. É segunda-feira e a semana começa animada, lá dentro. O Centro que um benemérito ofereceu à aldeia, há décadas, está um brinco. Todos os velhos deveriam poder viver assim, quando começa a contagem decrescente. O Centro de Dia e o apoio domiciliário são uma grande conquista de Abril, se calhar. Muitos são lúcidos, outros tantos sofrem de demências diversas, num leque em que o Alzheimer é só o nome mais conhecido.

Foi a P que me levou ali, camarada de outros tempos e jornais, para ver um espectáculo de magia que um rapaz da região ali vai fazer, para os idosos. Ela é agora “primeira-dama” do Rotary local, e lidera o melhor que sabe a Casa da Amizade, braço feminino do clube que se dedica a fazer o bem. Porque o mundo é pequeno, connosco vai a minha professora de inglês do 9º ano (igual, igualzinha) e uma antiga deputada da nação, agora aposentada. Lá espera-nos dona I, viúva de um presidente da Câmara que é mito desde a morte. É ela que dirige com mestria o complexo que agora também é Lar, equipado com conforto, de janelas viradas para a Serra da Bouça e outros montes. Fala com carinho aos idosos, e isso soa-me bem. Muitas vezes entrei em deprimentes lares, em que tratam os velhos como crianças, chegando ao ponto de os tratarem por “tu”. É deprimente e indigno. Mas real.

 

Gil, o mágico, nasceu numa freguesia  vizinha. Conhece muitos dos que ali passam as tardes. Veste de preto, é simpático, num minuto monta o estaminé que cabe em duas pequenas maletas. Dali hão-de sair uma pomba, cordas e lenços, uma tarde inteira de alegria para quem nem sempre sorri. Como aquele senhor alto e bem-falante que é pai de uma eurodeputada. Os filhos andam demasiado ocupados para o visitar, mas ali não lhe falta conversa. Ou como o casal que agora divide um quarto no Lar, paredes-meias com o Centro. Repousam mantas bordadas em cada uma das duas camas, com dedicatórias de netos. E uma fotografia das bodas de ouro, 11 anos antes, eles ainda tão frescos. “É o nosso galã”, sublinha dona I, A foto dos tempos de juventude não engana: brilhantina no cabelo, lenço branco a espreitar do bolsinho da lapela. Assistem juntos ao espectáculo e depois hão-de subir, para o quarto de duas camas e muitas recordações.

Foi antes disso que a vi, quando julgava não saber quem era. Uma mulher do meu tamanho estava parada, entre a dona I e o andarilho. Parada.

– Olhe aqui, estas amigas são suas colegas. Sabem que ela era jornalista?

De repente reconheci-a. Chamei-a pelo nome e demos um abraço. Saltaram-lhe duas lágrimas e talvez nos tenhamos lembrado ao mesmo tempo do nosso primeiro encontro, na Redacção d0O Correio de Pombal. Via-a outra vez a entrar no Nicola, sempre vestida de preto, preferencialmente em cabedal. O cabelo imenso, preto asa-de-corvo, que quando caminhava com passo certeiro a fazia confundir com uma rapariga de 20 anos. Quando se voltava percebia-se a cinquentona. Foi há 20 anos. A Emília era repórter do JN, tinha andado pelo mundo entre guerra e paz. Voltara à terra. Talvez ficasse na delegação que o jornal entretanto abrira em Leiria. Não ficou. Ia dizer que nunca mais soube dela mas não é verdade. Um dia, eu já de mão dada com o homem que me apareceu na vida através do jornal, fui visitá-la. Fomos. A casa onde morava com a mãe era um refúgio idílico. Cheirava a ameixas e maçãs frescas. Vi as fotos de quando era nova, de quando andou pelo mundo, das reportagens. De quando o cabelo era naturalmente preto. 

Depois encontrei-a já mais madura, no mesmo Nicola. Estava eu de volta a Pombal. E nunca mais a tinha visto. O cabelo é agora grisalho e curto, muito curto, como se fosse outra pessoa. Veste uma roupa prática igual às mulheres da sua idade, da sua terra. De que falarão? De alqueires de milho e carateres?Talvez de sementeiras e linguados, de plantações de trigo e pirâmides invertidas, de vindimas e texto corrido.

Sabem o dia mais estranho, em que nos confrontamos com o que há-de vir, sem ser em manchete nem nota de rodapé? Foi hoje.

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Até que a voz me doa

Pessoal e transmissível

As notícias de ontem de manhã fizeram-me recuar. É mais ou menos o que me acontece agora, todos os dias, quando ouço o Estado a que chegámos via rádio, vejo algum noticiário e  as fotos que circulam na net (felizmente), como ontem.

Mas de manhã falava-se do Dia Mundial da Voz. Parece que começou a ser comemorado há 10 anos. O que quer dizer que foi mesmo em 2003 que apanhei um valente susto, daqueles que me fez parar de repente e temer pelo abismo. Eu fumava. Não era muito, mas fumava. Todos os  dias. Durante anos fumava-se nas Redacções. No RL dos bons tempos o fumo concentrava-se de tal maneira que era quase possível palpar a nuvem que se sobrepunha às nossas cabeças. Eu e a Lurdes dividíamos um cinzeiro, o Carlos e o Fernando outro, o Faustino tinha um só para ele (fumava cigarrilhas, blhacccc), depois passou a dividi-lo com o João. Coitado do Manel, quando ali chegou, cheio de hábitos saudáveis…

De maneira que tudo corria bem. Eu já era mãe do João,  (deixei de fumar na gravidez por convicção, e foi quando percebi que não era verdadeiramente viciada, pois que nunca senti a falta dos cigarros durante 8 meses e não foi por tê-los enjoado).

Sempre fiquei rouca com muita facilidade. Quando muito nova, atribuía a causa às noites de fados e guitarradas, certa de nunca aprendi técnicas de canto nem de colocação da voz. Mas há 10 anos a coisa piorou. Além de rouca, sentia repetidamente uma impressão na garganta. Qualquer coisa ali que não descia (e não, não eram os dramas inerentes à profissão ou ao cargo). A minha costela hipocondríaca fez 500 filmes: imaginava-se sem pio, sem puder ler histórias ao meu filho, sem poder falar ao telefone, sem poder cantar. 

Por esses dias encontrei na rua um amigo que há poucos meses fora operado às cordas vocais. Recomendou-me a drª Graça e alertou-me para a dureza (mas eficácia) do exame. Marquei e fui. Fiz uma fibroescopia. A médica informou-me que estava tudo bem com a laringe, mas que havia ali um edema nas cordas vocais (“certamente provocado pelo facto de falar muito, trabalhar em ambiente fechado, sem circulação de ar natural”), e pelo sim pelo não, mandou-me fazer uma ecografia. 

Saí de lá de carteira vazia e metade aliviada. Fiz a eco, e foi quando descobri o nódulo da tiróide, que cresce comigo e me obriga agora a consultas e exames regulares. Mas mais nada. 

Foi na viagem do consultório para o carro que tomei a decisão. Deixei de fumar naquele dia quente de 2003. Só ontem soube que aquelas notícias que me abanaram a consciência eram relativas à primeira comemoração do Dia, por cá. Ele há coincidências.

Quando os antidepressivos esgotam

Da terra, Pessoal e transmissível

Nos anos em que me desgastei a dirigir um jornal local, várias vezes me senti no limite, no difícil equilíbrio de caminhar na corda bamba de uma economia que já então ameaçava descambar. Sabia à partida que a gestão não era a minha praia, por mais que me tentassem convencer do contrário. Depois somava-se o resto: um poder que se sentia acossado e aconselhava de forma velada os anunciantes a optarem por outro jornal, uma não-vida que não mata, mas mói.

Às vezes não conseguia dormir. Ou dormia e aquela gente invadia-me os sonhos, como naquele em que eu escalava uma montanha de areia e quando estava a chegar ao cume lá estava ele, em cima, a empurrar-me para baixo. Tive então o primeiro ataque de pânico, certa vez. Não sabia o que era e por isso julguei-me realmente doente, a pensar que aquilo era um avc ou um ataque cardíaco. E era tão nova. Sei que ainda nem sequer tinha chegado aos 30, porque (mais tarde) no consultório de um médico amigo ele me perguntou se o João me dava boas noites. Tinha 15 meses, ele. E dava. Dormia como um anjo que era, que de certa forma ainda é.

Saí de lá com a indicação para descansar e escapar àqueles níveis de ansiedade,mais uma receita de valdispert na carteira. A valeriana seria uma grande companheira, pelo tempo fora, até 2008. Fui escapando aos anti-depressivos, teimosamente. Nem toda a gente consegue. Não porque não seja corajosa, não porque não tenha vontade. É simplesmente porque não consegue, não aguenta. E percebi nestes dias que são muitos, muitos os que deles dependem para continuar a remar.

Um familiar pediu-me que tentasse aviar-lhe uma receita deles, em Pombal, pois que há duas semanas esperava por uma caixa na farmácia do Louriçal e não havia meio de chegar. Na segunda-feira de Páscoa lá fui eu à farmácia do costume procurar o ouro: ADT 25. Não havia. Nem esse, nem um substituto que às vezes os médicos prescrevem. Nem lá, nem em qualquer das quatro farmácias da cidade. Nem nas farmácias das freguesias vizinhas. Nem em parte nenhuma, porque estava esgotado.

Soube ontem que continua. Já não precisamos de ir buscar exemplos à Grécia. Só a força para resistir.