Quando os antidepressivos esgotam

Da terra, Pessoal e transmissível

Nos anos em que me desgastei a dirigir um jornal local, várias vezes me senti no limite, no difícil equilíbrio de caminhar na corda bamba de uma economia que já então ameaçava descambar. Sabia à partida que a gestão não era a minha praia, por mais que me tentassem convencer do contrário. Depois somava-se o resto: um poder que se sentia acossado e aconselhava de forma velada os anunciantes a optarem por outro jornal, uma não-vida que não mata, mas mói.

Às vezes não conseguia dormir. Ou dormia e aquela gente invadia-me os sonhos, como naquele em que eu escalava uma montanha de areia e quando estava a chegar ao cume lá estava ele, em cima, a empurrar-me para baixo. Tive então o primeiro ataque de pânico, certa vez. Não sabia o que era e por isso julguei-me realmente doente, a pensar que aquilo era um avc ou um ataque cardíaco. E era tão nova. Sei que ainda nem sequer tinha chegado aos 30, porque (mais tarde) no consultório de um médico amigo ele me perguntou se o João me dava boas noites. Tinha 15 meses, ele. E dava. Dormia como um anjo que era, que de certa forma ainda é.

Saí de lá com a indicação para descansar e escapar àqueles níveis de ansiedade,mais uma receita de valdispert na carteira. A valeriana seria uma grande companheira, pelo tempo fora, até 2008. Fui escapando aos anti-depressivos, teimosamente. Nem toda a gente consegue. Não porque não seja corajosa, não porque não tenha vontade. É simplesmente porque não consegue, não aguenta. E percebi nestes dias que são muitos, muitos os que deles dependem para continuar a remar.

Um familiar pediu-me que tentasse aviar-lhe uma receita deles, em Pombal, pois que há duas semanas esperava por uma caixa na farmácia do Louriçal e não havia meio de chegar. Na segunda-feira de Páscoa lá fui eu à farmácia do costume procurar o ouro: ADT 25. Não havia. Nem esse, nem um substituto que às vezes os médicos prescrevem. Nem lá, nem em qualquer das quatro farmácias da cidade. Nem nas farmácias das freguesias vizinhas. Nem em parte nenhuma, porque estava esgotado.

Soube ontem que continua. Já não precisamos de ir buscar exemplos à Grécia. Só a força para resistir.

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