Até que a voz me doa

Pessoal e transmissível

As notícias de ontem de manhã fizeram-me recuar. É mais ou menos o que me acontece agora, todos os dias, quando ouço o Estado a que chegámos via rádio, vejo algum noticiário e  as fotos que circulam na net (felizmente), como ontem.

Mas de manhã falava-se do Dia Mundial da Voz. Parece que começou a ser comemorado há 10 anos. O que quer dizer que foi mesmo em 2003 que apanhei um valente susto, daqueles que me fez parar de repente e temer pelo abismo. Eu fumava. Não era muito, mas fumava. Todos os  dias. Durante anos fumava-se nas Redacções. No RL dos bons tempos o fumo concentrava-se de tal maneira que era quase possível palpar a nuvem que se sobrepunha às nossas cabeças. Eu e a Lurdes dividíamos um cinzeiro, o Carlos e o Fernando outro, o Faustino tinha um só para ele (fumava cigarrilhas, blhacccc), depois passou a dividi-lo com o João. Coitado do Manel, quando ali chegou, cheio de hábitos saudáveis…

De maneira que tudo corria bem. Eu já era mãe do João,  (deixei de fumar na gravidez por convicção, e foi quando percebi que não era verdadeiramente viciada, pois que nunca senti a falta dos cigarros durante 8 meses e não foi por tê-los enjoado).

Sempre fiquei rouca com muita facilidade. Quando muito nova, atribuía a causa às noites de fados e guitarradas, certa de nunca aprendi técnicas de canto nem de colocação da voz. Mas há 10 anos a coisa piorou. Além de rouca, sentia repetidamente uma impressão na garganta. Qualquer coisa ali que não descia (e não, não eram os dramas inerentes à profissão ou ao cargo). A minha costela hipocondríaca fez 500 filmes: imaginava-se sem pio, sem puder ler histórias ao meu filho, sem poder falar ao telefone, sem poder cantar. 

Por esses dias encontrei na rua um amigo que há poucos meses fora operado às cordas vocais. Recomendou-me a drª Graça e alertou-me para a dureza (mas eficácia) do exame. Marquei e fui. Fiz uma fibroescopia. A médica informou-me que estava tudo bem com a laringe, mas que havia ali um edema nas cordas vocais (“certamente provocado pelo facto de falar muito, trabalhar em ambiente fechado, sem circulação de ar natural”), e pelo sim pelo não, mandou-me fazer uma ecografia. 

Saí de lá de carteira vazia e metade aliviada. Fiz a eco, e foi quando descobri o nódulo da tiróide, que cresce comigo e me obriga agora a consultas e exames regulares. Mas mais nada. 

Foi na viagem do consultório para o carro que tomei a decisão. Deixei de fumar naquele dia quente de 2003. Só ontem soube que aquelas notícias que me abanaram a consciência eram relativas à primeira comemoração do Dia, por cá. Ele há coincidências.

Anúncios

One thought on “Até que a voz me doa

Penso que:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s