Novembro

Pessoal e transmissível

O tempo arrefeceu. A minha mãe ligou-me já noite dentro com aquela voz que anuncia, em si, uma tragédia qualquer. O tom de voz da minha mãe é coisa que dava um estudo comportamental, acompanhado do bater acelerado do meu peito quando a ouço, às primeiras sílabas. 

– era só para te dizer que morreu o “Artista”.

A essa hora já eu tinha despido a Leonor do seu vestido-de-bruxa preto e roxo, depois de mais uma visita ao alergologista, depois de voltas em rodopio ao parque de estacionamento do Hospital de Santo André; depois de virar do avesso o quarto do João, de redescobrir livros de que nem eu me lembrava, que lhe comprei em colecções num tempo que ficou lá atrás, como a infância dele. E fotos, muitas fotos de quando era pequeno. No meio, uma nossa, de quando só éramos três, à beira do Sena. Foi essa que me fez recuar ainda mais longe: Paris, Novembro de 1995. Saímos à noite (como em cada um daqueles 10 dias alucinantes que lá passámos, eu e o meu homem, na nossa primeira viagem de avião). A cidade toda festejava o Hallowen, com todo o esplendor daqueles anos dourados – lá, como cá. Mas cá ainda não chegara aquela americanice, como mais tarde chegaria. Se então me dissessem que os meus filhos um dia iam festejar o dia/noite das bruxas com preceitos…ria-me, pois. Eu, que cresci sem a tradição do bolinho. Na Moita do Boi nunca se pediu pão-por-Deus nem nada parecido. As minhas memórias deste(s) dia(s) não vão além de um dia em que também tinha de me levantar cedo para ir à missa (era a missa mais concorrida de todo o ano, porque os fiéis acreditavam alcançar a santidade, nesse Dia de Todos os Santos), das visitas aos cemitérios (no dia dos Fiéis Defuntos) e das histórias maléficas que se contavam da noite que, afinal, sempre foi das bruxas…

“Uma vez o tio vinha de bicicleta para casa, quando voltava da serração, já de noite, e veio uma luz atrás dele o caminho todo”.

“Outra vez a ti Maria foi buscar uma carrada de abóboras e o carro virou-se no meio do caminho”.

“Podes sair de casa mas só vais à Associação e voltas para casa, que isto não é noite para se andar por aí”. Só que aos 16 anos nenhuma explicação nos convence. E as almas inquietas não se compadecem com verdades seculares, tanto mais quando há um baile a que queremos muitos ir, porque acreditamos que o mundo acaba ali mesmo se não formos. 

Dessa vez eu fui. E foi também a primeira vez (acho mesmo que a única , ou quase, vá lá) em que menti à minha mãe. Não quis saber dos fiéis defuntos que se haveriam de levantar no meu caminho, qual Thriller do Michael Jackson em versão Louriçal. Apanhei boleia de mota e fui ao baile. Disse que ia estudar para casa de uma amiga, lá na terra. É claro que o serviço de informações já era de topo naqueles 80’s, e por isso, na manhã seguinte, fui acordada com o pior dos raspanetes. O meu castigo foi ter de pedir, pela primeira vez, para voltar a sair de casa no fim-de-semana seguinte. E ouvir um anunciado “não”. Para mim ficou claro que as duas bruxas que foram contar à minha mãe do baile e da minha mentirinha-de-amor haveriam de pagá-las, cá, como a vida se encarregou de fazer.

O tempo arrefeceu. Ainda estava sol, estes dias, quando a minha mãe me contou que ele tinha cancro. “Primeiro era um dente, depois já era a garganta, quando foram a ver estava espalhado”. Que estava no hospital e não se sabia se voltava. Que já era alimentado por um tubo. 

Ainda no meio dos raios de sol, lembrei-me de nós na escola. Ele era da minha idade. Era muito engraçado, um miúdo traquina e astuto, que inventava tudo a toda a hora, a quem apelidavam de verdadeiro “artista”. Assim ficou o cognome. Um dia, talvez tivessemos uns seis anos de idade, fomos à boleia da bicicleta das nossas mães a uma reunião da catequese. No regresso, as ladeiras obrigavam-nos a percorrer alguns desses quilómetros a pé. Eu lembro-me de saber que já era grande mas de me apetecer tanto colo, mas tanto, que só queria chegar ao cimo da ladeira. Ele trepava a todas as barreiras, pendurava-se nos pinheiros e fintava as videiras do caminho. Nós, os outros miúdos, a alertarmos para o perigo. “Cuidado Carlitos, olha que ainda cais daí abaixo!”

– Não caio nada. Não vês que eu sou o Artista?…

A frase assaltava-me, estranhamente, amiúde, ao correr dos anos. A nossa amizade não passou da quarta-classe. Já não sei se ele ficou só por ali mesmo ou se chumbou, algures, e nos separámos. A vida correu diversa e só nos cruzámos poucas vezes, em cumprimentos de circunstância. 

E então é Novembro. O Artista morreu, de cancro, aos 40 anos. Vai a enterrar mais logo, no cemitério da vila, depois de passar pela Igreja onde o Padre Ulisses nos preparou para a primeira comunhão. Já não é feriado, hoje, apesar de Novembro. O tempo arrefeceu e só agora dei conta.Imagem

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