O caminho faz-se caminhando, mesmo que em formato digital

Da blogosfera, Dos jornais, Pessoal e transmissível

Se os jornalistas com 25/30 anos não compram jornais, como é que queremos ter leitores?”

A pergunta – feita no sábado de manhã  pelo espanhol Borja Echevarría, editor no El País, durante a conferência internacional “O Regresso do Jornalismo (a grande reportagem na era digital) –  mora na minha cabeça desde há muito tempo. Desde muito antes de ter trocado um posto de trabalho pela dignidade, vai para dois anos – quando recusei aquela obscena redução salarial que a douta administração me propunha.

A pergunta mora na minha cabeça desde que percebi que tinha camaradas que nunca compravam um jornal. Não, eu não vou fazer aqui o elogio fúnebre do papel. Nem tão pouco dissertar sobre o fundamentalismo digital. Vou apenas sublinhar (outra vez) aquilo que já disse há quase um ano, noutra conferência: não vale a pena continuarnos a lutar contra moinhos de vento. O mundo muda tanto, e tão depressa, que o melhor é estarmos sempre prontos para embarcarmos, mas devidamente equipados.

Durante três dias confirmei posições, abanei certezas, conheci exemplos extraordinários de gente que está a fazer coisas fabulosas, sobretudo lá fora. Entre essa gente há portugueses. Como o João Pina, fotojornalista que há 8 anos teima em trazer à luz do dia o projecto “A sombra do Condor”, sobre a operação que durante anos incidiu num processo sistematizado de violação dos direitos humanos, uma escola de tortura e morte (muitas vezes sem rasto) perpetrada pelas ditaduras militares da América Latina, com o apoio nauseabundo dos Estados Unidos. O João só tem 32 anos. Identifiquei-me com aquela história pouco comum de quem começa a trabalhar antes de frequentar qualquer curso, muito menos qualquer curso universitário. Pensava ele que iria tirar seis meses da vida para aquele projecto de reconstrução de trajectos, entrevistas aos sobreviventes e (sobretudo) feito de palavras e imagens das famílias que nunca souberam o que aconteceu aos seus. Vai em oito anos. Agora espera conseguir fazer vingar o sonho da publicação através de crowdfunding. Era que consiga, sinceramente. Que o passe a livro, a documentário, a filme.

Só pelo título que deu ao livro (publicado em 2007) sobre 25 presos políticos portugueses, percebe-se a alma do João Pina. Como se percebe a do Tiago Carrasco, igualmente novo, igualmente determinado, repórter de imprensa, que um dia se meteu num jipe com os amigos João Fontes e João Henriques (fotógrafo e repórter de imagem, respectivamente) para contarem juntos aquilo que não vinha nas notícias durante o Mundial da África do Sul. Como as histórias dos meninos com poliomialite, alguns já sem pernas, que continuavam a jogar futebol de muletas. Vale a pena percorrer com eles a Estrada da Revolução.

Se é certo que, como disse Henrique Monteiro, ao terceiro dia de conferência, “os jornais nunca tiveram tantos leitores, mas com tão poucas vendas“, o caminho que nos resta é o digital, se quisermos sobreviver? Seria, se em Portugal não existisse esta confusão doentia entre o que é lazer e trabalho, em tudo o que diz respeito ao que é publicado on line. No fundo, continuamos com os mesmos hábitos do clube de bairro, onde os adeptos se empoleiram nas barreiras para não pagar bilhete de entrada no jogo. Falta-nos percorrer esse caminho. A nós, jornalistas, e às empresas de onde nasce a publicidade.

De resto, foi muito bom ver e ouvir Travis Fox ou esse furacão que é Amy O’Leary, mas é um conforto para a alma ouvir o Adelino Gomes. Sempre, entre outra gente nossa que, como o Paulo Moura (mentor da conferência), nos inspira. Ou como a Alexandra Lucas Coelho, que me fez conhecer os Midia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Acção), esse caso de sucesso no Brasil, que deriva de certa derrota da história de conluio e compadrio entre a imprensa tradicional e o Estado. São jornalistas – a maioria no desemprego – que se juntaram num colectivo e existe sobretudo a partir do Facebook. “Já não precisamos dos veículos, nós somos os veículos” disseram eles, quando se apresentaram na rede. É claro que isso foi muito antes de a Rede Globo (a própria!) lhe ter pedido imagens. A eles, os pés-descalços do jornalismo, que durante horas filmavam as manifestações, de dentro, com um iphone. Cujo estúdio não tinha mais que um ou dois computadores portáteis. Sobrava-lhes, sobra-lhes ainda, vontade. Aquilo que em Portugal nos falta tantas vezes.

Falta-nos também – ou melhor, falta aos patrões dos media – perceber em que medida os jornalistas como marca individual podem fortalecer uma marca colectiva. Por exemplo, dar força aos blogues e às páginas dos jornalistas dentro das páginas digitais do jornal. Aglutinar em vez de separar. Quando penso num jornal que certa vez bloqueou as redes sociais na Redacção…percebo melhor o estado a que chegámos.

Sobra-me a mim o conforto de saber que há sempre novos “modelos de negócio” (o que eu gosto do nome…faz-me lembrar coisas como PHV, sinergias e tal)  a despontar em cada clique. Porque a minha filha, de cinco anos, quando se magoa no joelho e me quer mostrar onde lhe dói, diz-me coisas como “mãe, clica aí”. Talvez eu nunca lhe consiga passar o prazer de folhear um jornal. Mas quero muito que ela (e toda a geração dela) nunca percam de vista a diferença entre um tipo que filma umas coisas, tira umas fotografias, passa umas informações para a net…e um jornalista, que recolhe e trata a informação e a comunica usando os mais diversos meios. Que ela nunca perca de vista que ir ao médico não é a mesma coisa que consultar no google o que se deve tomar em caso de persistência dos sintomas.

fotografia 3fotografia 2fotografia 1 (1)

Anúncios

Penso que:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s