Leonor

Pessoal e transmissível

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Quanto tu cresceres e conseguires perceber melhor todas as coisas, eu espero que este tempo esquizofrénico já tenha passado. Às vezes bate-me um frio na barriga – porque não antevejo dias melhores, porque tudo aquilo que os governos estão a fazer são apenas pinceladas de base numa maquilhagem que disfarça mal as cicatrizes. Mas depois encho-me de esperança, quase todos os dias, porque te devo isso, filha.

Quando tu nasceste não anunciaste apenas o verão. Trouxeste contigo uma espécie de antídoto para os dias difíceis que tinham começado há pouco tempo. Foi, em muitos anos, a primeira vez em que não tivemos dinheiro para algumas coisas, e foi quando começámos a ouvir a palavra “crise”, primeiro em pequenos gomos e depois à tonelada. Naquele 2008 eu e o pai perdemos oito dos nossos, da nossa família. Já estavas na minha barriga quando nos despedimos da avó Maria, que era afinal a avó-mãe do pai. Às vezes, quando olho para aquela moldura azul ali na estante, em que ela posa pela última vez para a fotografia ao lado do João, imagino a felicidade que teria sido, para ela e para ti, terem-se conhecido. Também já estavas na minha barriga quando levámos o João à Disney pela última vez, quando passeámos no Sena com os primos e quando deixei o jornal em Pombal, qual “Teresa Baptista cansada de guerra”, quando comecei a minha segunda vida em Leiria. Para ser mesmo verdadeira contigo, tu só te alojaste na minha barriga quando percebeste que me ia embora. Isso eu sei. E depois, foste tu também quem me fez parar, ficar em casa quietinha, até nasceres, um mês antes da data anunciada.

Foi contigo, afinal, que aprendi tanto sobre mudanças, sobre esse desafio constante de responder a tudo, mesmo quando temos que inventar a resposta. Eu já me tinha esquecido de como isto era, porque o João já estava um rapazinho feito e a vida passa tão depressa que nos obriga a arranjar espaço, cá dentro, para guardarmos outras coisas. No entanto, há aquelas que ficam coladas no lado esquerdo do peito. Não as escrevi, como fiz quando o João era pequeno. O facto é que nem sequer cheguei a fazer-te aquele álbum da tradição, porque estávamos ambas muito mais ocupadas a dar beijinhos e abraços constantes, a dormir juntas quando nos apetecia (não quis saber de teorias, porque a idade adulta nos traz esta capacidade de decidir sem sentimentos de culpa. De resto, acho que até aos pediatras traz essa faculdade de tolerância…)

E depois veio o outro tempo, a outra vida. Foi quando comecei a ir buscar-te mais cedo à escola, a ficar contigo quando adoecias, a fazer-te camisolas de tricô e cortinas para o quarto. Eras muito pequena para te explicar em detalhe que a crise era uma senhora de costas muito largas, o que era a conjuntura, as reduções salariais ou as extinções dos postos de trabalho. Sei que a ti o que te importou mais foi deixar de haver noites sem a mãe, cansaços traduzidos em falta de paciência para ti, falta de tempo. O tempo, sempre o tempo. Ganhámos tempo, sim. E mesmo que me custe tanto não termos álbuns de férias para folhear nem pedaços de mundo para contar, acho ainda agora que entre o deve e o haver, ganhámos. Que a música e as histórias e as canções não custam dinheiro. Nem os caminhos que te ensinamos a percorrer.

Os outros nem sempre te percebem, nem lhes podemos pedir isso. Gostamos de ti mesmo assim, minha flor, com todo esse mau-feitio cuja herança ainda disputamos (eu e o pai). O que nos importa é que sejas feliz, que continues a rir de gargalhada aberta, a zangar-te quando tiver de ser, inconformada com a mais básica explicação que te derem. E que continues a sonhar, ou mesmo a encher a mealheiro de moedinhas para comprar o tablet ou fazermos uma loucura como ir ao Algarve. Porque nós também vamos continuar a sonhar, Maria Leonor. É a única coisa que a mãe pode prometer.

22 de Junho de 2014

 

 

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