Retrato de família

Pessoal e transmissível
fotografia (7)

Quinta de Sant’Ana

Fez oito dias ontem, mas ainda guardo os sorrisos francos, a água fresca dos salpicos quando uns atiraram outros para a piscina (vestidos); o vinho branco, os grelhados, as conversas e as saudades. Herdarmos uma família grande, quando a nossa já era gigante, é uma felicidade que deveria ser possível saborear mais vezes.

Levo mais de 20 anos desta nova família. Já fomos muitos mais nestes convívios, nestas festas de primos-irmãos. À medida que subiram estrelas ao céu, nasceram muitos e pequenos piratas. Alguns encontraram-se agora pela primeira vez, e eu imagino-os assim, como nós, daqui por 20 anos, a rir do prazer de estarmos juntos, ao menos uma vez por ano. Com a mesma felicidade com que olhamos agora para os nossos mais velhos, em tardes de bilhar, bola na praia, passeios de bicicleta ou escapadelas nos arraiais de verão, que a era digital ainda não acabou com o ciclo da vida das hormonas – e ainda bem.

Depois da festa cada um retornou à vida que tem, numa espécie de volta ao mundo – da Europa à China, passando pela América. E foi bonita a festa, pá.

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A minha visita era para ser rápida e sem grande história. Mas a noite estava de verão e levei os homens, que também queriam assistir ao espectáculo do Rouxinol Faduncho, e para isso estavam dispostos a depender das horas a que me despachasse da entrevista marcada. Tinha percebido pelo cartaz que aquela era uma festa rija – como acontece há anos – mas ver não é só olhar. E ver de perto, com os olhos e com o coração, é outra coisa.

Rapariga festeira como eu não é facilmente impressionável com qualquer arraial. Mas gosto particularmente das idas de flores que se prendem na torre da igreja, e gosto mais ainda de ver muita gente junta, nos dias que correm. Por estranho que pareça, de Carnide só guardava memórias de umas reportagens com o velho Joaquim Mota, e mais tarde de uma viagem a la inspector Gadjet, à beira da ribeira, com o Eusébio, para tentarmos descobrir a origem de umas descargas.Também me lembrava de uns jantares no Dia da Mulher, única edição do ano em que O ECO esgotava naquela freguesia. Mas a festa só entrava na minha vida pelo cartaz pendurado à beira da nacional, nas viagens de regresso a casa. A terra não tem indústria, nem grandes acessibilidades, tão pouco é badalada dentro ou fora de portas. Percebi no sábado que tem a maior riqueza com que uma comunidade pode sonhar: gente que arregaça as mangas e vai à procura de apoios para fazer daquela uma festa memorável, como esta está a ser. E nos tempos que correm fazer uma festa assim, com cartaz rico (e diversificado, onde cabe o Emanuel e nós pimba mas também o Rouxinol Faduncho ou os UHF, mais uma noite de folclore em que um rancho da Turquia prendeu as atenções até dos que estavam distraídos nos bares e nas quermesses) é obra. Impressionou-me a organização. Aquela malta parece profissional da festa e do arraial, com tudo previsto e arrumado. Imaginem um recinto com centenas de cadeiras que desaparecem como por magia, arrumadas metodicamente mal termina o espectáculo.

É por isso que o verso cantado por Caetano Veloso continua a fazer sentido: de perto, ninguém é normal. De perto, continua a ser um mistério como é que uma pequena freguesia como aquela consegue virar-se do avesso e colocar de pé uma festa assim. Mais ou menos com aconteceu na Guia, este ano. Ou como vai acontecer no Louriçal, no próximo fim-de-semana. Salvaguardadas as distâncias, esta é uma sacudidela no Bodo citadino. E com luva branca ou punhos de renda.

Carnaide (como lhe chamou o Marco Horácio) rules!

Da terra, Pessoal e transmissível

O meu prédio está em obras. Desgraçadamente, desde que trabalho em casa ganhei todo um know-how de vivências que alimentavam um blogue inteiro, mas são pouco interessantes. Esta manhã acordei com o frenético ranger de ferros à janela, mais uma música de berbequim a corroer-me até a pontinha da espinha. Já sabia com o que podia contar, em matéria de classe operária. Por isso não me alimentei de nenhuma curiosidade. Sentei-me a escrever na ponta da mesa do costume, fiz os meus contactos rotineiros e continuei para bingo, que ainda me faltava aviar muitos caracteres. Até que um deles me bateu no vidro a dar ordens:

– feche as persianas, faxabor!

Expliquei que não podia fechar totalmente: primeiro porque uma delas nem sequer fecha, de todo, por obra e graça de Maria Leonor. Segundo porque precisava de alguma luz para trabalhar.

E o homem riu-se.

Pessoal e transmissível

Da preguiça

Da blogosfera, Dos jornais, Pessoal e transmissível

Au revoir, mes amis

Se não fosse a queda daquele avião, no Outono de 1977, eu era agora uma pujante emigrante na Alemanha. Talvez me tivesse casado com um jogador de futebol nas horas vagas – do clube português de que o meu pai era dirigente – e, quem sabe, acumulava uma carreira executiva de sucesso na Mercedes Benz com uma colaboração na Gazeta da comunidade portuguesa. Ou não. Como facilmente se percebe, não faço por menos: a minha história de vida tem pelo meio a trágica queda daquele avião da TAP, parecido com um daqueles em que eu iria viajar, com a minha mãe, aos cinco anos de idade, para nos juntarmos ao meu pai, lá.

Ainda guardo de recordação o passaporte e na memória as crises patéticas de choro sempre que se aventava a hipótese de voarmos – porque nessa altura eu atirava para o fino, numa época em que poucos viajavam de avião. Não fomos, pronto. Nem assim nem de outra maneira, que a minha mãe também não se estava a ver longe da Moita do Boi. Quer dizer que aquele foi apenas um pretexto, que fez de mim uma portuguesa de e para sempre. O meu pai acabou por regressar a Portugal motivado pelo aumento da família, que entretanto se operara numas férias de Verão. E pronto, aqui ficámos todos, a contar tostões em vez de marcos.