Da preguiça

Da blogosfera, Dos jornais, Pessoal e transmissível

Au revoir, mes amis

Se não fosse a queda daquele avião, no Outono de 1977, eu era agora uma pujante emigrante na Alemanha. Talvez me tivesse casado com um jogador de futebol nas horas vagas – do clube português de que o meu pai era dirigente – e, quem sabe, acumulava uma carreira executiva de sucesso na Mercedes Benz com uma colaboração na Gazeta da comunidade portuguesa. Ou não. Como facilmente se percebe, não faço por menos: a minha história de vida tem pelo meio a trágica queda daquele avião da TAP, parecido com um daqueles em que eu iria viajar, com a minha mãe, aos cinco anos de idade, para nos juntarmos ao meu pai, lá.

Ainda guardo de recordação o passaporte e na memória as crises patéticas de choro sempre que se aventava a hipótese de voarmos – porque nessa altura eu atirava para o fino, numa época em que poucos viajavam de avião. Não fomos, pronto. Nem assim nem de outra maneira, que a minha mãe também não se estava a ver longe da Moita do Boi. Quer dizer que aquele foi apenas um pretexto, que fez de mim uma portuguesa de e para sempre. O meu pai acabou por regressar a Portugal motivado pelo aumento da família, que entretanto se operara numas férias de Verão. E pronto, aqui ficámos todos, a contar tostões em vez de marcos.

 

Mas o destino guardava para mim uma fatia da emigração recheadíssima de tudo. Acabei por me casar com um filho de emigrantes, primo de emigrantes, sobrinho de emigrantes, amigo deles, que escapou por um triz ao futuro como chefe de chantier, qual Joaquim de Almeida numa Gaiola Dourada, como gostamos de alvitrar. Foi com ele que entrei então num avião pela primeira vez, muitos anos depois daquela minha trágico-história de infância, para irmos a Paris. E foi aí que me interessei a sério pelo tema da emigração, depois de entrar nos mundos que aquele mundo escondia. E havia de tudo: os que viviam o ano inteiro à espera de fazer a viagem de regresso a Portugal, ao som de cassetes com sons minhotos e canções de cortar os pulsos; os que vinham cá de férias para rever família e amigos e pronto; os que se isolavam em guetos e desfiavam todos os palavrões que sabiam entre a viagem de metro e as associações portuguesas, passando aos filhos esse fanatismo tuga, mesmo aos que já eram supostamente franceses; e ainda aqueles que se interessavam pela história do país e dos antepassados, com o carinho e entusiasmo próprios de quem guarda o que gosta em lugar seguro.

Nesse princípio dos anos 90 nenhum de nós podia imaginar que o país viria a ser alagado por uma nova onda de emigração como nos anos 60, e ninguém aqui se imaginava a despejar caixotes de lixo ou a servir à mesa com um canudo debaixo do braço. Por essa altura, uma portuguesa de Santiago de Litém já marcava pontos na encenação e na direcção artística. A Judite (da Silva Gameiro) tinha chegado aos bairros de lata nos arredores de Paris com pouco mais de nove anos, junto com os pais e irmãs. Haveria de voltar, cumprindo o sonho português, e querer fazer neste pequeno país as coisas que já fez pelo mundo, no universo artístico. Foi ela que apresentou à Câmara de Pombal um projecto de homenagem à emigração de que fez parte, e que por estes dias dá vida à belíssima Casa Varela, que Korrodi nos deixou. Juntou um punhado de artistas da terra, trouxe mais uns de Lisboa e aí anda ela, outra vez a remar contra a maré, como nos anos 60, como se ali contasse também a sua história, que é a de todos nós, afinal. Há muito para ver, ouvir e sentir nos próximos dois fins-de-semana de Agosto, depois do que aconteceu nas festas do Bodo.

O Leonel Mendes, vulgo Rapaz Improvisado (que Leiria conhece bem), disse-me tudo: “Acontecer algo deste estilo em Pombal durante as Festas do Bodo é coisa rara ou até mesmo única. E ter sido convidado para ajudar a ressuscitar um edifício histórico há tanto tempo esquecido pela cidade foi o que mais me interessou neste projecto! A experiência foi seguramente enriquecedora, pois tive a oportunidade de trabalhar com pessoas de diversas áreas artísticas, e, quando assim é, o resultado de um espectáculo será sempre mais completo! O tema, tendo sido o da emigração, foi a ideia brilhante para acontecer durante as festas do Bodo, um belo de um motor de arranque! Que esta casa seja um dos pontos fortes de interesse cultural da cidade, e que o turismo local possa enriquecer nesse sentido.”

Afinal, em seis meses isto mudou muito. Termino esta minha temporada de Preguiça muito mais contente com a minha cidade, com aquilo em que ela ainda se pode tornar. Vista daqui, Leiria continua a ser o que é, e a fazer inveja às vizinhas. Havemos de nos encontrar por aí, numa página de jornal, num link, ou numa esquina qualquer.

(texto publicado a 31 de Julho na Preguiça Magazine. Último de uma série que durou seis meses. O resto pode ser lido aqui.

 

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