A minha visita era para ser rápida e sem grande história. Mas a noite estava de verão e levei os homens, que também queriam assistir ao espectáculo do Rouxinol Faduncho, e para isso estavam dispostos a depender das horas a que me despachasse da entrevista marcada. Tinha percebido pelo cartaz que aquela era uma festa rija – como acontece há anos – mas ver não é só olhar. E ver de perto, com os olhos e com o coração, é outra coisa.

Rapariga festeira como eu não é facilmente impressionável com qualquer arraial. Mas gosto particularmente das idas de flores que se prendem na torre da igreja, e gosto mais ainda de ver muita gente junta, nos dias que correm. Por estranho que pareça, de Carnide só guardava memórias de umas reportagens com o velho Joaquim Mota, e mais tarde de uma viagem a la inspector Gadjet, à beira da ribeira, com o Eusébio, para tentarmos descobrir a origem de umas descargas.Também me lembrava de uns jantares no Dia da Mulher, única edição do ano em que O ECO esgotava naquela freguesia. Mas a festa só entrava na minha vida pelo cartaz pendurado à beira da nacional, nas viagens de regresso a casa. A terra não tem indústria, nem grandes acessibilidades, tão pouco é badalada dentro ou fora de portas. Percebi no sábado que tem a maior riqueza com que uma comunidade pode sonhar: gente que arregaça as mangas e vai à procura de apoios para fazer daquela uma festa memorável, como esta está a ser. E nos tempos que correm fazer uma festa assim, com cartaz rico (e diversificado, onde cabe o Emanuel e nós pimba mas também o Rouxinol Faduncho ou os UHF, mais uma noite de folclore em que um rancho da Turquia prendeu as atenções até dos que estavam distraídos nos bares e nas quermesses) é obra. Impressionou-me a organização. Aquela malta parece profissional da festa e do arraial, com tudo previsto e arrumado. Imaginem um recinto com centenas de cadeiras que desaparecem como por magia, arrumadas metodicamente mal termina o espectáculo.

É por isso que o verso cantado por Caetano Veloso continua a fazer sentido: de perto, ninguém é normal. De perto, continua a ser um mistério como é que uma pequena freguesia como aquela consegue virar-se do avesso e colocar de pé uma festa assim. Mais ou menos com aconteceu na Guia, este ano. Ou como vai acontecer no Louriçal, no próximo fim-de-semana. Salvaguardadas as distâncias, esta é uma sacudidela no Bodo citadino. E com luva branca ou punhos de renda.

Carnaide (como lhe chamou o Marco Horácio) rules!

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Da terra, Pessoal e transmissível

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