De amor e de sombra

Pessoal e transmissível

Em Novembro de 2003, à hora em que o estádio municipal de Leiria era inaugurado para o campeonato da europa que viria a seguir, o meu coração de mãe batia descompassado num corredor do Hospital da Figueira da Foz, enquanto o João se livrava das amígdalas e adenóides, aos quatro anos de idade. Durante meses pesou-me no peito aquela hora que me pareceu um século, da mesma maneira que demorei a esquecer-me do drama que foi dar-lhe de comer nos dias seguintes. Os anos passaram e eu fui-me esquecendo. Até que esta semana me vi com a Leonor no mesmo Hospital, ela com mais dois anos e a repetir-me a toda a hora “eles vão-me matar! Eu não quero ser operada”. Desdramatizei tudo o que podia, contei-lhe do João, do pai, dos amigos todos que me lembrei terem feito a mesma operação, comum, afinal. Mas ela insistia naquilo, cheia de convicção, espremendo o meu maduro coração de mãe.

Os filhos são todos diferentes e não vale a pena teorizar sobre essa verdade absoluta. Ela lá foi operada, durante os 40 minutos mais longos de todo o sempre. Passámos dois dias e duas noites no hospital, e voltámos para casa a caminho de uma recuperação tranquila, só entrecortada pelas indicações alimentares. Deixámos junto ao mar da Figueira os medos e o piso da pediatria que já foi maternidade. Reencontrámos algumas enfermeiras de há 11 anos, conhecemos os doutores palhaços da Operação Nariz Vermelho, chocámos de frente com a realidade da diabetes no pequeno João, filho de um antigo colega de escola que ali fui rever (os pais e ele a tentarem assimilar o que estava a acontecer…) e matámos o tempo ao ecrã de um Magalhães, já que o HDFF disponibiliza vários exemplares aos meninos internados. Eu já não me lembrava daquilo. De como no meio de certo delírio, o Sócrates tinha uma ideia para este país, personificada no empenho em dotar os mais novos do acesso ao inglês e aos computadores. Demos muitos passos atrás, afinal, neste campo.

Num hospital, as horas custam a passar. As noites também. Tive tempo de sobra para estabelecer comparações entre as nossas vidas, entre a vida do país. Para meditar sobre a estupidez em forma de linha que separa administrativamente esta região, sobrelotando alguns hospitais e esvaziando aquele, que diz tanto à minha gente. E por isso não tivemos tempo de pensar na entrada na escola, preocupação maior de todos os pais e meninos por aqueles dias.

Vamos fazê-lo agora, com uma semana de atraso, muito a tempo de apanhar este comboio. Para ti, Leonor, eu e o pai queremos exactamente o mesmo que pedimos ao João, há 10 anos: que sejas feliz, a aprender. Que se algum dia eu tiver de escolher entre seres boa pessoa ou boa aluna, escolho claramente a primeira. Num mundo ao contrário como este, num país em esquizofrenia, só o amor nos pode salvar da sombra.

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