Enquanto houver estrada para andar

Pessoal e transmissível

Percebi nos últimos tempos que isso da saúde ser o mais importante não é um chichê. Quando um dos nossos ramos adoece, falta-nos um bocado de chão, (sobre)vivemos à espera de boas notícias, andamos fora da própria pele. Mas a vida impõe-se todos os dias, há as vidas dos  outros que dependem da nossa, e não há como contrariá-la. Em dias de chuva como este em que hoje acordámos, apetece ficar debaixo do cobertor para sempre, eu sei. Mas depois, como é que iríamos apreciar o pequeno raio de sol que há-de espreitar lá atrás da nuvem?

Os últimos anos provaram-me que resistimos a tudo, mesmo às intempéries. Às vezes custa muito. Era tão melhor se nos pegassem ao colo e nos sentassem lá naquele lugar de algodão, mel, veludo e seda. Às vezes os outros acham que os resistentes não têm dores nem cansaços. Têm. As mais intensas de todas, como aquela contracção que ameaça perfurar um rim, antes do parto.

Mas depois há a vida, do outro lado da esquina. O humor (negro e único) do Daniel, a sabedoria do João, a gargalhada da Maria Leonor. Há o mimo doce dos meus pais, a existência daqueles amigos que me enriquecem todos os dias, mesmo aqueles que estão longe e que…existindo, resistem. Há também os inimigos, os que são só tolos e não chegam a tanto, a quem também agradeço sempre por servirem de exemplo, na hora de explicar aos meus filhos como não se deve fazer.

De maneira que passam hoje 42 anos desde aquela madrugada na Casa da Mãe, na Figueira da Foz. Diz a minha mãe que foi um parto difícil, o cordão umbilical a insistir sufocar-me e eu a resistir. Uma vez ganha essa luta, foi só seguir em frente.

Pombal, 13 de Novembro de 2014

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