Conhecemo-lo muito antes de nascer, mal se anunciou a inesperada gravidez da mãe, que nascera poucos meses antes de nos mudarmos para esta casa – faz agora 18 anos. Vimo-lo crescer na barriga dela, assistimos ao tsunami que aconteceu na porta do lado, depois disso, e que resultou numa família desfeita. Sempre preferi o barulho, porque só ele nos permite saborear o silêncio. Dos que vivem em silêncio, nunca sabemos o que esperar. Como aconteceu com a J., mãe do L, que naquele dia em que a mãe dela me pediu que lhe falasse, para a tentar convencer a (pelo menos) perceber as mudanças que a vinda de uma criança iria implicar na sua ainda tão curta vida, com a agravante de ter feito uma delicada cirurgia havia ainda pouco tempo. Para o resto da vida hei-de lembrar-me do silêncio, de como ocasionalmente levantava os olhos do ecrã do telemóvel para me dizer, com meio sorriso, “vai correr tudo bem”. E correu, até há dois dias. A mãe dela assimilou que “o mal estava feito”, aceitou a gravidez, acompanhou as consultas e ajudou a nascer o pequeno neto. Aos 40 anos a maioria das mulheres em Portugal está a ouvir pela primeira vez a palavra mãe. E a I. preparava-se para ouvir chamarem-lhe avó.

O L nasceu, há dois anos e nove meses, e tornou-se um príncipe lá em casa, herdando da mãe o silêncio: quase ainda não fala, mas chama mãe à avó. As ondas de choque daquele tsunami –  que vira do avesso a vida de uma família, quando uma adolescente engravida – às vezes ouviam-se no meio do silêncio. O menino precisava de conviver com outros iguais. Tal como a mãe, afinal, que no entanto não deixou de ser adolescente e achar que o mundo era dela, sem regras nem adultos a importunar. Os adultos já tinham, afinal, uma função: criar o pequeno L. No meio de um daqueles momentos em que os adolescentes medem forças com os pais (neste caso com as mães), a conversa azedou e ambas ficaram de costas voltadas e palavras mudas. A mãe continuou a fazer como lhe ensinaram: cozinhar, lavar, passar, tomar conta de. O pai continuou na sua vida, na nobre função de ganhar o sustento da família. Do pai do L, nunca mais se soube nada.

E então era preciso inscrever o menino na creche, colocá-lo em contacto com outros iguais. A mãe dele disse que não, porque estava quase a fazer 18 anos e ambos iriam embora.

Nunca acreditei, quando a avó mo dizia. Até que ontem soaram pancadas na minha porta, pancadas de aflição. “Lê isto”, disse-me a avó, em soluços. A J aproveitou uma ausência da mãe e pôs-se em marcha, com o filho. Deixou uma carta em que dizia saber “que ia doer muito”, mas “tinha de ser”. Era preciso avisar as autoridades de que havia um menor alegadamente em risco, levado para parte incerta.

E foi aí que chocámos (eu e a avó) de frente com a realidade, numa esquadra de polícia de uma cidade pacata, onde julgávamos que reinava a paz e o sossego, na calada da noite, a avaliar pelo silêncio, esse dissimulado.

Demorei horas, dias, para digerir o que ali se passou. Eu ao telefone com assistentes sociais, polícias e funcionários judiciais conhecidos, para ter a certeza de que era mesmo assim que tinha de ser feito. O “graduado de serviço” entre um telefone e um computador, a fazer o que sabe e o que pode, para acudir a tanta ferida: a menina com menos de 20 anos, grávida, vítima de violência doméstica; a menina de 14 a quem os pais maltratam física e psicologicamente, até chegar aos olhos e aos ouvidos dos vizinhos, a tia da segunda que liga para a esquadra e insulta o agente, o namorado da primeira que liga para a esquadra e insulta o agente, e o agente que tem de perceber a ocorrência, que diz que não pode escrever que o menor está em risco, que liga para a mãe do L e ela não atende, que manda um sms do seu telefone pessoal porque não pode mandar do telefone da polícia. Que está cansado, porque aquela noite de Agosto está a transbordar de feridas sociais. Não apareceu ali ninguém a fazer queixa de furtos ou assaltos. Ao meu lado, a avó do L chora, em soluços. Lá dentro, a menina de 14 anos chora baixinho, em soluços. Mais tarde, haverá de ser outra vez entregue aos pais. Como? “oh minha senhora, são os pais”…

Faço mais uns contactos e consigo o telefone do pai da J, avô do L. Não atende. Só quando chegarmos a casa haveremos de ter notícias: ele ligou entretanto à polícia e informou que a J e o menino estão com ele. Fiquei sem saber se o caso era dado como resolvido, para as autoridades, ou se seguia os trâmites da comissão de protecção a crianças e jovens em risco. “Sabe que ela é maior de idade…”, advertiu-me nessa noite uma fonte conhecedora do processo. Eu sei. Mesmo que continue a vê-la como criança, agora responsável por outra.

Naquela noite voltei para casa, terminei um texto, fechei uma edição de um suplemento que estava agendado para aquele serão. Ouvi a avó e o tio chorarem, pela noite dentro, na casa do lado. Lembrei-me do agente, da música dos Simpsons na televisão da esquadra, do som do auto-rádio que comunica com os que andam na rua, na cidade onde tudo parece dormir. Do semblante dos agentes, treinados para um mundo de polícias e ladrões, onde as assaltos acontecem na alma de cada um, no coração das pessoas. E percebi que fazem falta psicólogos e assistentes sociais por ali, que usem da força mental para estes dramas, em vez da outra, em vez dos “procedimentos legais” para registar “a ocorrência”. Seria preciso que cada um dos governantes levasse um banho de realidade destes para o sentir na pele. Mas como só vão às esquadras em dias de festa, tudo é alegria, tudo está no seu lugar, graças a Deus.

Não sabemos o que será do pequeno L. Nem o que vai ser de nós, neste país.

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Pessoal e transmissível