Chorar e rir – o dia seguinte

Dos jornais, Pessoal e transmissível
*o day after da era Cavaco é bom dia para voltar a este blogue.

Santa Apolónia não arrotava magotes de gente como na canção do Palma, talvez porque àquela hora já tudo foi à sua vida, ou porque já não há magotes de gente. Quando comprei o bilhete, horas antes, na estação de Pombal, o funcionário pôs-se a adivinhar: “ah, vai à posse do Marcelo!

Não, não ia nem fui. E lamento desapontar esse país que seguiu pela tv uma “Lisboa em festa” que eu não vi, mas isso deve ser defeito meu, provinciana ainda às voltas com isso das ruas e do metro e das ligações e da gincana que vejo os meus amigos fazerem para chegar onde é preciso. Fui só à reunião do Sindicato e ao lançamento do livro da Isabel Nery, a quem conheci há pouco mais de um ano, lá, na Duques de Bragança. Desconfio que vivemos todos na mesma tribo, numa outra vida, tal é a ligação que agora temos.Mas voltemos atrás, à viagem. Na mala levei o saco do tricot e o livro da Isabel, logo haveria de decidir o que me apetecia mais. Tinha começado a lê-lo na véspera, ia talvez a meio, e não lhe resisti. Queria saber tudo sobre a história dela, que aos 37 anos sofreu um AVC, meses depois de uma reportagem sobre o assunto e os que lhe sobreviveram. O livro lê-se de um fôlego, é uma história muito bem contada, como nas reportagens bem feitas. Abstraí-me do rancho de filhos pequenos de um casal nortenho que tomou conta do comboio toda a viagem e chorei que nem uma madalena grande parte do tempo, porque a Matilde dela tinha então a idade que agora tem a minha Leonor, porque está escrito com tamanho realismo que nos transporta para lá, para o frio das salas do hospital, para o medo de não ver os meninos crescerem, para a incerteza da vida e para o fio da navalha da morte. E a mim transportou-me ainda para 2007, quando um AVC parecido com o dela levou o meu primo Sérgio, aos 32 anos, quando as meninas dele também eram igualmente pequenas. Num blogue que eu alimentava diariamente então (era moda…) contei essa perda e as outras todas que se lhe seguiram ao longo do ano, oito no total, entre os meus e os do meu homem. Por isso eu tinha mesmo de ir, Isabel. Para confirmar que há sempre excepções à regra, para poder rir de estarmos vivos e saborear aquele fim de tarde tão doce, no lançamento do livro. A essa hora estava o Marcelo a pôr a boina na cabeça e a mantinha nas costas para assistir ao concerto que marcou o primeiro dia do resto da vida dele, e deste país.

No trajecto entre Santa Apolónia e o Chiado, apanhei um taxista daqueles que sabem tudo, menos onde fica a Duques de Bragança. Aquele disse-me que era brasonado (descende dos condes de Águeda) e tudo, e que espera agora pela primavera marcelista (digo eu) para ver aprovado um projecto que apresentou já a tudo quando é governante e a todas as televisões.

ah, aqui é o Sindicato dos Jornalistas? Mas a senhora é jornalista? Então também pode fazer alguma coisa sobre isso!

Não cheguei a saber o que era porque o homem não conseguiu explicar-me. Atrás de nós estava o eléctrico, pintado de novo, cheio de turistas que nos últimos tempos povoam essa Lisboa, gaiata, de chinela no pé. Foi uma chatice ter de encostar para me passar um recibo, é uma chatice “este tempo nublado que não deixa o nosso gps funcionar”. Desejei-lhe sorte, seja lá para o que for. “Só lhe posso dizer que era para melhorar a sua vida, a sua e a de toda a gente”.

Subi a belíssima escadaria de madeira do edifício do SJ a pensar que existem mesmo, os loucos de Lisboa. Para quem vive em Pombal, era preciso que se esforçassem muito para nos fizer duvidar. Depois rimo-nos muito, todos, durante a tarde, chorámos um bocadinho de emoção com a Isabel no lançamento do livro, e rimo-nos outra vez no trajecto, entre a Fnac de Oeiras e Santa Apolónia, onde a Anabela nos descarregou. Jantei um bitoque numa tasca onde só se fala brasileiro e aproveitei aquele tempo para acabar o livro, enquanto a televisão continuava a mostrar a tal Lisboa em festa, o dia em que Cavaco foi à vida dele e Marcelo passa a presidente. Há dias que valem a pena.estrada

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