Não quero esquecer-me de nada, não posso permitir que o tempo me leve as memórias mais frescas de mim, que são contigo. Quando eu mesma for velhinha, quero que os meus netos saibam quem foste, que antes deles os meus filhos saibam mais de ti do que aquilo que lhes mostravas, o lado da bisa que dava bolachas, ensinava os mais pequenos a fazer um “toma, Catrina” e repetia vezes sem conta “oh, valha-me Deus”, “É assim a vida”.

O que eles não sabem, avó, é que antes de te faltar a saúde, no último ano, foste uma fortaleza à prova de qualquer intempérie. Não poderiam eles imaginar – agora que te viam na cama do hospital, tubos de oxigénio no nariz, dificuldade em falar, um relambório de valores alterados nas análises e muitos queixumes – que houve tempos em que nunca adoecias. Que ainda aos 70 e muitos fazias o quilómetro e meio que separa Antões da Moita do Boi de uma penada, mesmo à hora da sesta, no verão, entre o almoço e o regresso à apanha das batatas, aos braçados de pasto ou de couves.

Foste mais minha avó do que de outro neto qualquer, para meu consolo. Porque faz de conta que eu era neta única naqueles primeiros cinco anos, pois que o Toni e o Joni só vinham nas férias, a Stephanie nunca cá tinha vindo, nesse exílio prolongado do tio Zé, fugido à tropa e à guerra. Foste só minha até nascer a Rosália, a Sara, o João Pedro, a Emilie, a Maria Armanda,  o Miguel, o Edgar, o João Gonçalo, o Remi, a Daniela, a Carolina, a Inês e por fim a Mariana. E nesse tempo eu cabia tão bem no teu regaço, aninhada no manto preto de franjas no inverno, e dentro do cesto de vime no verão, lá no alto da tua cabeça. Só muito mais tarde percebi que esses passeios a caminho das terras de cultivo não eram uma festa, a caminho do trabalho. Lá em cima, empoleirada sobre a rodilha de trapos que sabias fazer tão bem, encaixada no cucuruto do teu cabelo preto, conseguia ver de perto toda a letra de “a gente não lê”, que ainda estava por escrever. O avô à frente, enxada ao ombro, sem saber que o Alzheimer lhe haveria de roubar a noção de quem era, muita vinha para cavar, muito milho para regar, ervilhas para sachar e feijão para debulhar a seguir ao almoço. Isso ou eu acomodada nas tábuas do carro de vacas, quando a distância era maior. Nesse tempo usavas o lenço atado com dois nós atrás da nuca, como as tias no rancho folclórico. Vês por que tudo me parecia uma festa? Uma casa sempre cheia de tios e tias ( alguns pouco mais velhos que eu), a família de Lisboa e da Marinha Grande que se juntava a nós nas matanças, nos natais de batatas-couves-com-bacalhau; metade da aldeia que vinha às descamisadas. O que eu gostava das descamisadas, avó…

Ninguém sabe o que eu achei, na casa da brincadeira/uma carta de namoro, debaixo de uma cadeira.

A eira tomada por um rancho de gente, as conversas à desgarrada, eu cheia de sono a deixar-me dormir em cima das camisas, desperta só às vezes quando um lagarto me entrava por dentro do vestido de alcinhas que a minha mãe me fizera.

Ai, Gabriela, és a minha perdição/ ai, Gabriela, amor do meu coração.

Nesse tempo das colheitas nem sempre me calhava dormir naquela casa cheia. Às vezes, chegado o fim do dia, os tios mais novos disputavam a minha guarda até casa. Porque quem fosse iria dormir lá, também. E ver televisão. Talvez O Astro ou D. Xepa a entreter um país, já não me lembro. O que eu gostava mesmo era de ficar. Ninguém voltará a fazer aquele frango guisado com arroz, tão-pouco as sardinhas de cebolada, a sopa “negra” de feijão encarnado na panela de ferro. O café na “chocolateira”, ao lume, pela manhã.

Tum, tum vai lavar a perna, tum tum vai lávar/tum tum vai lavar a perna, à beira do mar.

Quando entrei para escola Primária acabou-se muita dessa boa-vida. Vinham as férias, num instantinho me punha lá de bicicleta. Como daquela vez em que o cão se atravessou à minha frente e caí, ali junto de ti. “Ai meu Deus adorado!”, gritaste tu, lavaste muito bem a ferida com água fria, ficou só a cicatriz até hoje, na cabeça, só eu é que a noto. Lavaste da mesma maneira como da outra vez, quando tropecei no canoilo do milho, com aquela aflição com que partiste todos os ovos que tinhas em casa para aliviar as costas do Joni, quando a panela de água a ferver o queimou. Eu sabia que tu não tinhas medo de nada, avó. Conto ainda hoje a toda a gente como matavas as cobras que te apareciam pelo caminho, com o olho da enxada, um pau, o que houvesse. E ríamos sempre quando contavas o lado medricas da minha mãe, daquela vez em que eu ainda nem andava e me levaram para a vinha, nos intervalos das costuras dela. “Sentámos a menina em cima de uma manta, no pinhal. Nisto aparece uma cobra. A Zita abalou a fugir. Deixava a filha e tudo…

Nunca vi que um lírio verde

à beira de água secasse

não pensei que o meu amor

tão depressa me deixasse.

Quando se passa por tanto na vida como tu passaste, quem está à volta recusa-se a interiorizar velhice e doenças. Só me dei conta de que não eras imortal quando te vi no Lar, há poucos meses, quando já não tinhas condições para viver sozinha. Antes disso, as rugas eram apenas marcas de quem trabalhou sempre tanto, de sol a sol, pariu dez filhos sozinha, viu morrer-lhe uma nos braços, em bebé. Mataram-te outro, na idade adulta. E tu sempre a limpar as lágrimas e o suor e a seguir em frente, passo ligeiro, carteira na mão.

Agora que chegaste aí ao céu, avó Leontina, já podes pousá-la. Deves ter tanto para conversar com o avô Zé Maria. Fiz ontem as contas, passaram 13 anos desde que ele partiu. O meu padrinho também há-de estar à tua espera;  a tia Amélia, as tuas amigas.  A Leonor tinha-te feito outro desenho, desta vez no tablet, que já não chegaste a ver. Vamos guardá-lo no arquivo das memórias que nos deixas, no que ficou destes 88 anos, metade deles como minha. Minha querida avó. ❤

 

 

 

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