Escrevo num ecrã que tem as marcas de um beijo que a Maria Leonor aqui deixou, numa das vezes em que se besunta com o meu batom mais forte. “É para te lembrares sempre de mim” – disse-me, quando confrontada com este e outros beijos que estão espalhados pela casa: na parede do corredor, na cozinha, no interruptor da casa de banho. Com o tempo, foi percebendo que a mãe não fica em casa a jogar no computador ou no tablet, tão pouco a ver séries de manhã à noite. Demorou até compreender que também se trabalha em casa (mais tarde perceberá que é muito mais complicado trabalhar em casa do que fora dela), até encaixar que de pouco lhe valia fazer o número da dor de barriga ou de cabeça para sair da escola e vir para casa. À segunda vez que a descarreguei na avó, percebeu. Por ora, é a única lá da sala a quem isso acontece, o que tornou a compreensão mais difícil. Também ajudou o facto de, amiúde, estar aqui a mãe a despachar notícias de última hora quando já devíamos estar a jantar. Mas a minha filha sofre do mesmo mal pós-moderno de toda uma geração que parece nascida de um chip, e por isso nunca aceitou muito bem que viver pendurada num computador e num telefone fosse um trabalho a sério. Só quando lhe mostro os textos impressos no jornal é que acredita. Temos aqui um problema, já sabíamos, todos nós – os jornalistas. O meu começa simultaneamente dentro de casa e no local de trabalho.

Depois do regresso às aulas, voltámos a uma espécie de normalidade: levantar cedo (não tão cedo como o madrugador João, que gosta de ir “com tempo”, para tomar café com os amigos…sim, eu tenho um filho que já toma café…), preparar o lanche, o pequeno-almoço, agarrar o dia com a melhor energia que conseguimos, despachá-la com o pai e ala, que se faz tarde. Às vezes sou eu que a vou buscar, a maioria delas num intervalo, que comporta tradicionais idas ao supermercado. Mas este ano conseguimos até ir ao parque…pelo menos enquanto for de dia. Quando não vamos, sei-a entretida com qualquer coisa naquele tempo bom, enquanto não volta à piscina e – sobretudo –  desde que não há trabalhos de casa. Foi a grande diferença nas nossas vidas. Acredito que devo agradecer para sempre ao Eduardo Sá ter perpetrado esse pequeno milagre. Depois de uma palestra que veio dar à comunidade docente, o Agrupamento decidiu acatar a sugestão e suspender radicalmente “os deveres”. Ninguém me disse que foi por causa disso, mas nem é preciso. Passei demasiados anos a grasnar contra os TPC para não assinalar a revolução, neste bloco de notas tantas vezes esquecido. Não era preciso irmos do 80 ao 8…mas…quando mal nunca pior, por isso deixamo-nos estar assim, a saborear o tempo, esse luxo que nos escapa. Para espanto (ou talvez não) dou com ela a ler muito mais, a querer mostrar-me com mais vontade o que ficou do dia na escola, e agora a falar inglês, essa novidade do 3º ano.

Sei que há um coro organizado que defende o contrário, e que confunde a defesa deste princípio com a falta de regras e de disciplina. Qualquer dia chamam-me anarquista e outras coisas que degeneram da “esquerdalha”. Que fique sempre claro: nos anos todos em que os professores dos meus filhos lhes mandaram trabalhos para casa, sempre o respeitei. Mesmo não os defendendo, ainda acho que o sapateiro não deve ir além da chinela, e por isso cada um deve saber qual o seu papel no universo da escola, mesmo nos dias em que o crepúsculo tinha muito pouco de romântico ou bucólico, com chatices, choros e exercícios, que terão contribuído zero para um melhor desempenho e “sucesso escolar”. Este não é o tempo das mães-donas-de-casa nem dos empregos das 9 às 5. É o tempo da precariedade, sobretudo. E a Escola deveria ser o primeiro lugar a percebê-lo, por lidar em primeira instância com os herdeiros desse modo de vida na corda bamba. Quando ouve, já não é mau.

Cá em casa podemos não perceber nada de metas e processos sistematizados, mas sabemos distinguir entre a vontade de ir para a escola e a falta dela, que faz toda a diferença (haverá muito mais a dizer, mas fica para depois). De resto, não fazemos questão de viver muito presos à normalidade. Seja lá isso o que for.

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Pessoal e transmissível