História(s) de Fátima

Dos jornais, Pessoal e transmissível

#Joaquimjoaquim dias

Ao telefone com um jovem de Paredes, Joaquim Dias espera pelo DN no átrio da Casa Nossa Senhora do Carmo. Do lado de lá está um jovem cuja mulher acabou de sofrer um aborto espontâneo, o que deixou o casal muito perturbado. Não tarda há de meter-se no carro e vir ao Serviço de Escuta, inaugurado pelo Santuário de Fátima em dezembro de 2015, e entregue ao leigo Joaquim Dias. “Até do estrangeiro vêm cá. Não é um serviço anunciado mas não temos mãos a medir”. Os mais de 700 atendimentos feitos em 2016 atestam essa procura crescente daquele “assistentes espiritual”. Joaquim está à beira dos 50, é funcionário do Santuário, mas não encara esta missão como um trabalho. “Encaro como uma oferta que faço aos meus irmãos. Se Deus me deu esta graça de saber escutar, de nos momentos certos saber orientar… se fosse um trabalho não o faria tão bem feito”. Em Fátima e na diocese cresce a curiosidade à volta deste ex-empresário formado em sistemas de refrigeração automóvel, nascido em Miramar, Vila Nova de Gaia, a quem um acidente de viação fez mudar de vida. “Eu era uma pessoa muito ambiciosa, gananciosa, que só vivia para ter dinheiro. Tinha uma firma, que está hoje com o meu irmão mais novo”. Naquele 4 de Maio de 2002, “ ia de carro na A 28, a discutir ao telemóvel com a minha esposa, a mais de 160 km por hora, e fiz oito piões na estrada. Estava a chover, era hora de ponta. Não bati em ninguém. Quem me viu pensou que eu estava bêbado ou drogado. Quando entrei para o carro da polícia, um deles diz: ‘hoje o de lá de cima olhou para si’. E aquilo mexeu comigo”, conta ao DN Joaquim Dias. De tal forma que mudou de vida. Um ano depois, numa visita ao Santuário de Fátima, a filha mais nova tropeçou nas pernas de D. Serafim Silva, então bispo da diocese de Leiria. “Foi ele a chave para isto tudo”, sublinha Joaquim, que em menos de nada se mudou para a comunidade Canção Nova, em Fátima, com a família. E de lá nunca mais saiu.

Joaquim faz 50 anos a 22 de Junho. Foi a Fátima pela primeira vez na barriga da mãe, estava ela no sexto mês de gravidez, em 1967, para ver de perto o Papa Paulo VI. “Dizem que na antecipei o nascimento por causa de tanta alegria que tive aqui. Acabei por nascer de sete meses. Nasci roxo, sem chorar, fui baptizado a correr, porque o médico acreditava pouco na sobrevivência. Disse: ‘olhe, vamos ver se temos gente ou não temos’. Afinal tiveram. “Nossa Senhora já estava a acolher aqui um filho que mais tarde veio parar a Fátima”.

No dia do acidente, Joaquim voltou à empresa. “Cheguei à firma, fechei-me no escritório e disse aos funcionários que não estava para ninguém. Três dias depois a minha filha mais velha ia fazer 10 anos. A minha esposa tinha 29 e eu 32. Pensei: ganhar dinheiro, ter carros, ter tudo isto, se eu morro, quem é que vai cuidar das minhas filhas? Cheguei a casa e disse: ‘alguma coisa tem que mudar na nossa vida’. Eu saía muito cedo de casa, entrava muito tarde, só via as minhas filhas ao domingo. E aquilo fez-me reflectir. Sempre os meus pais me ensinaram que Fátima era um lugar onde podíamos colocar tudo. Todos os anos vinha a Fátima. Mas depois entramos numa fase de juventude em que nos afastamos de Deus, e pomos como prioridade as coisas mundanas”. Nesse tempo, antes da viragem (do carro e  da vida) Joaquim “ia à igreja por ir. O sacramento da Eucaristia não me dizia nada. Fazia figura de corpo presente. Depois tornei-me diferente. As leituras, as palavras do santo evangelho começaram a fazer sentido. Comecei a fazer trabalho na paróquia. E a perceber que o que queria para mim era aquilo, que a Igreja dava sentido à minha vida mesmo nas horas difíceis”. Depois da viagem a Fátima, com a família, nesse dia em que a filha tropeçou nas pernas de um bispo, Joaquim mudou-se para a comunidade Canção Nova, onde havia todos os estados de vida: casados, solteiros, celibatários, sacerdotes. “Não podia entrar para uma comunidade religiosa porque já era casado. E queria continuar. Sou casado há 27 anos, apaixonado pela minha  esposa  como na primeira hora. Não foi fácil. Eu tinha um salário muito bom e não me faltava nada. Comprava tudo o que queria, para nós e para as filhas. Quando se deu esta volta, viver da providência, os meus pais e sogros não aceitaram muito bem. Foi quando disse à mãe ‘tu sempre me ensinaste desde pequenino que em primeiro Deus, porque sem Deus nada conseguimos fazer’. A Sandra [mulher de Joaquim] e as meninas também estavam felizes. Mas foi um ano difícil. Estavam sempre à espera que eu voltasse”. Joaquim não voltou ao Porto, nem é suposto que volte algum dia, a não ser de passagem. “ Hoje vivemos do básico, do essencial, e somos felizes, vim com dois filhos e agora tenho quatro. Catarina é acólita, tem 18 anos. A mais velha é catequista. O mais novo tem 6. Dizemos que o papa Bento XVI é culpado da gravidez da Sandra. Fazemos o método natural, e na vinda do papa, em 2010, ela era responsável pela área da comunicação na comunidade e lá dentro nada coincidia com o mapa que fazemos. Nasceu o Tiago. Sempre desejámos um menino”.

No Serviço de Escuta, instituído pelo reitor do Santuário de Fátima em Dezembro de 2015, contabilizam-se 700 atendimentos por ano. “Atendo desde bebés a idosos. Era preciso uma pessoa que soubesse orientar e não levar tudo para um campo só espiritual ou psíquico. O que faço? Um monte de coisas! Atender as pessoas. Entro às 9h30 da manhã e estou até às 6,7 da noite, a atender”. Naquela manhã, o caso mais trabalhoso era o de uma jovem que vinha de tentativas várias de suicídio. Mas há dores de toda a origem, casos diversos. Além disso, “fazemos uma parte social, através deste serviço. Ajudar por vezes a pagar uma conta de electricidade, alguém que precisa de um cabaz de alimentação, vítimas de situações de aflição e que precisam de dormir uma ou duas noites, máximo três. Agora, por exemplo, temos uma pessoa que vai sair da prisão, e antes de entrar para uma comunidade vai estar lá dois ou três dias, nas instalações do santuário. Às vezes pensa-se que o santuário é só a procissão de velas, os terços e as celebrações e que não faz mais nada, mas é um mundo aqui dentro. Se as pessoas conhecem de facto o que é o Santuário de Fátima, todas as que aqui chegassem beijavam o chão. O resgate que faz a tantas pessoas. A obra que faz. Escutar, abraçar, dar uma informação, um sorriso. Há sempre uma mão estendida aqui”.

Será este, afinal, um serviço de psicologia? “Um pouco. É cuidar da pessoa. Saber acolher. Pôr-me no lugar do que sofre, como o samaritano. Se não for assim, nunca sei cuidar”. E no final do dia consegue desligar? “Sim. Eu chego à capelinha e entrego os sofrimentos. ‘Senhor, estão aqui os teus filhos’. Na comunidade tínhamos um sacerdote que fazia estes atendimentos; eu como sou loucamente apaixonado pela liturgia… O padre viu esse zelo e convidou-me para estar com ele em tudo. Desde 2008 estudo muito. Comecei a escutar as pessoas e ia orientando como deviam fazer. Então as pessoas já me procuravam a mim mais que ao padre Fernando. Comecei a ficar um pouco assustado. Fui ter com o Sr Bispo António Marto,  e de vez em quando eu voltava a falar com ele a contar-lhe o que sucedia. A própria Casa Episcopal começou a mandar pessoas, às vezes queria o meu parecer.  Faço todas formações que posso, desde a eutanásia, psicologia, psiquiatria, passo a vida a investigar e a ler muito. Estive com alguns exorcistas para perceber um pouco o que fazem, em dois encontros, um em Fátima e outro em Roma. Vou dialogando muito com D. António Marto e o Padre Jorge Guarda”.

*Fátima, 29 de Março de 2017. Reportagem para o Diário de Notícias. Fotografia do Paulo Cunha. 

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