#Pedro Santa Marta

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“Era um homem extraordinário, o Padre Kondor”, há de dizer mais tarde Pedro Santa Marta, o engenheiro químico de profissão, que em junho comemora 40 anos ao serviço da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima. Alentejano de nascimento, foi parar ao Ribatejo pela via do casamento com uma médica. “E logo no ano em que me casei, a minha mulher veio acompanhar um grupo na peregrinação dos doentes. Estava ali sentado junto à Capela de Nossa Senhora das Dores, à espera dela, quando um irmão meu que já era servita me perguntou se não queria ajudar. Puseram-me uma braçadeira amarela no braço, e foi assim, até hoje.” Era junho de 1977, tinha apenas 25 anos, e começou aí uma caminhada de voluntariado que já o levou a todos os serviços da organização nascida em 1924. Agora preside a direção, mas já coordenou os serviços de saúde, por exemplo, que os peregrinos conhecem como o “lava-pés”, onde médicos e enfermeiros tratam das mazelas causadas pelas longas caminhadas até Fátima. “É um serviço destinado aos que chegam a pé. Fazem-se massagens, desinfetam-se feridas, mas é o serviço que tem notado menos afluência de pessoas nos últimos anos”, revela Pedro Santa Marta, justificando a mudança com os sinais dos tempos: “Hoje as pessoas vêm mais organizadas e com outros cuidados. Depois, ao longo do caminho, quer a Ordem de Malta quer a associação da Mensagem de Fátima dão muito apoio.” Apesar de voluntário, o trabalho dos servitas é feito de forma bastante organizada, em estreita articulação com o Santuário. “Recebemos muito mais do que damos”, considera o presidente, um entre os mais de 400 servitas que se distribuem pelas várias peregrinações ao longo do ano, e que passam por processos de seleção, formação e experiência. “Nós não somos melhores que os outros. É uma maneira que temos de servir, dentro da Igreja. Aqui não atendemos utentes, acolhemos peregrinos”, insiste Santa Marta, o homem que um dia, nessa peregrinação de 2000, durante a missa de João Paulo II, estava incumbido de acompanhar a irmã Lúcia à comunhão e trazê-la para o lugar. No final, depois das cerimónias, levava-a para o carro (a ela e à madre superiora do Carmelo), na parte de trás da basílica. Acabada a missa, começa a Procissão do Adeus. “O senhor padre Kondor disse: “Ó irmã, chegue-se à frente para ver melhor.” Há quem olhe para cima e grite “olha a Lúcia!” Veio tudo por aí acima. Apanhei o susto da minha vida. Estava apavorado, pois que a amassavam! Subimos as escadas. Não estava lá carro nenhum. Peguei nelas e meti-as na basílica.” E ali ficaram fechadas, até que o servita encontrasse o carro e as conduzisse ao Carmelo. No mês seguinte, quando chegou a Fátima, Pedro Santa Marta tinha uma carta da madre e lá dentro um terço feito pela irmã Lúcia, que durante a viagem não lhe dissera uma única palavra.

Nós não somos melhores que os outros. É uma maneira que temos de servir, dentro da igreja, onde há dezenas de movimentos. Aqui não atendemos utentes, acolhemos peregrinos. As nossas duas filhas não quiseram, e nunca forçámos. Fazemos aqui o nosso trabalho, o mais visível é a organização das cerimónias no recinto. Quando comecei a vir, quase não havia ninguém ao fim de semana. Agora se vier aqui em Junho, Julho, Agosto, encontra mais gente do que nas peregrinações aniversárias de julho ou setembro. A vida está mais complicada. Antigamente havia mais facilidade em vir do que hoje, há pessoas que só têm disponibilidade para colaborar nos fins de semana. Hoje em dia sou mais ou menos dono do meu tempo, mas nem sempre foi assim. A minha entrada para os Servitas coincidiu com uma mudança de emprego. Quando entrei para a empresa disse logo como gostava que, de maio a outubro, nos dias 12 e 13, pudesse tirar dias de férias. Hoje é muito complicado, sobretudo para os mais novos. Para a geração dos 20 e 30, é terrível”.

A maioria dos servitas são “pessoas com mais idade”, mas ainda há jovens que se juntam ao movimento. O que é preciso ter ou ser?Ter fé. Ser devoto de Nossa senhora. E da mensagem de Fátima. Procurar cumprir tudo o que ela pediu. E ter vontade de ajudar os outros”.

E quem são, afinal? “Somos um conjunto de cristãos, católicos, devotos a Nossa Senhora e à mensagem de Fátima que vem a Fátima voluntariamente prestar assistência aos peregrinos. A actividade exerce-se essencialmente nas peregrinações aniversarias de Maio a Outubro. No posto de socorro e no ‘lava pés’. É o serviço que dá apoio aos retiros de doentes, as equipas têm os servitas e os diocesanos”.

Pedro Santa Marta preside à direcção, um dos vários órgãos da associação. Há ainda a assembleia geral e o conselho de disciplina, para analisar as situações de irregularidade. “Nenhum de nós é santo e às vezes há servitas em situações irregulares. Pessoas que nunca mais cá puseram os pés. Somos mais de 400 de todo o país e um espanhol. No ativo cerca de 300”.

A origem dos Servitas remonta aos primórdios das aparições.Nas memórias da irmã Lúcia, no relato da aparição de Setembro, pode ser-se a descrição. “Quando se dirigiam para a Cova da Iria, já ela fala nuns senhores que ajudavam os peregrinos que vinham, com mais dificuldades. Foram os primeiros servitas. D. José Alves Correia da Silva, bispo na época, sugeriu que se organizassem. Em 1924 os homens e no ano seguinte as senhoras. São voluntários, com todos os tipos de profissão”.

No final do ano a associação envia a todos s servitas uma folha para preencherem com a sua disponibilidade nas diversas atividades e peregrinações. Fazem-se as convocatórias. “Para este mês de maio, toda a gente mostrou disponibilidade…mas os servitas têm que dar no mínimo disponibilidade para 3 peregrinações por ano e uma para fim de semana ou retiro de doentes. Há quem dê mais”.

Os servitas de Fátima estão agora a informatizar e construir o site. “Temos diferentes serviços aqui entro. Os homens têm umas correias –  inspirados nos hospitaleiros de Lourdes, em França – que serviam para ajudar a transportar as macas dos doentes. Hoje já não é para isso, mas continua a ser uma imagem de marca. Os médicos e enfermeiros têm uma bata branca com braçadeira amarela. As senhoras um véu com a cruz de Cristo. Ajudam junto à capelinha quem faz as suas promessas de joelhos”. Uma parte importante é o Serviço de admissão de doentes, das pessoas que vêm a 13 receber a bênção do santíssimo, na colunata. “Há pessoas que vêm à procura de um lugarzinho para se sentarem. Este maio será complicado. As pessoas têm que se acreditar. Temos os ficheiros, muitas trazem documentos dos seus médicos”.

Além do episódio da irmã Lúcia, Pedro Santa Marta guarda muitos, de uma vida devota a Fátima e aos outros. “Há muitos anos havia uma barraca de campanha grande, junto à cruz alta. Estávamos a acompanhar as pessoas. E vem um rapaz de camuflado que ia fazer a promessa de rastos. Junta-se sempre muita gente, nessas alturas. Procuramos dizer às pessoas que talvez fosse melhor falar com um senhor padre e  fazer outra coisa. Como as mães com os bebés ao sol;  convencer as pessoas que arranjem um peso igual ao das crianças, que a mãe dê a criança ao marido, para não apanhar sol…. Então o rapaz estava deitado no chão e olha para mim, quando eu lhe dei a sugestão. E diz-me ele:  ‘Ouça lá: eu andei dois anos em África a rastejar por causa dos terroristas e agora não posso rastejar por causa de Nossa Senhora’?”.

*Fátima, Março de 2017. Reportagem para o Diário de Notícias, fotografia de Paulo Cunha.

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