sergio ribeiro

No dia em que se assinalaram 43 anos da libertação (a 27 de Abril), recebeu o DN na sua casa de Zambujal, Ourém, a seis km de Fátima. Foi íntimo de Artur de Oliveira Rodrigues, o administrador do concelho às vezes retratado pela história como “um facínora”, o que lhe causa enorme revolta. O pai, Joaquim Ribeiro – que dará nome a um Centro de Documentação – assistiu aos acontecimentos de 13 de outubro de 1917 e garantia nada ter visto. O antigo eurodeputado comunista confessa admiração “por algumas coisas que o Papa Francisco diz”, mas considera “ridículo” que venha canonizar duas crianças “por terem tido visões”.

Quando combinámos esta entrevista estava em Fátima. Podemos saber o que foi lá fazer?

Estava no Colégio do Sagrado Coração de Maria. Fui lá pela 13ª vez consecutiva. Convidaram-me uma vez, parece que não desagradei às freiras…e todos os anos me convidam. No ano passado houve um pequeno incidente com um pai que não gostou que eu tivesse sido convidado, e escreveu ao colégio a dizer que não deviam convidar gente como eu. Não sei porquê…

Gente comunista?

Sim…escreveu uma carta um pouco complicada, a que eu respondi em termos que acho civilizados. E este ano não esperava ser convidado.

Mas foi na mesma.

…e foi muito agradável ir lá e estar com os miúdos.

Que idade tinham?

13 anos, na  sua maioria. Estavam ali à minha frente e eu a lembrar-me dos primeiros que me ouviram ali, e que agora têm 26 anos. É uma experiência muito curiosa. Ontem fui à escola de Atouguia. Também fui ao Centro Escolar da Cova da Iria. Já percorri o concelho todo, bisto.

E nesses encontros o que procura transmitir aos miúdos?

Duas coisas: primeiro, que na idade deles comecei a olhar à minha volta e via coisas de que não gostei e tentei fazer alguma coisa para mudar. Mas como nessa altura não havia liberdade, só opressão e perseguição, sofri as consequências. Foram desagradáveis, com prisão, com tortura, com morte, com assassinatos de amigos…[é o que vou relatando aos miúdos em linguagem que procuro acessível] mas que me deram uma enormíssima alegria… ter estado preso no 25 de abril e ter saído para a liberdade. Ter nascido segunda vez.

Considera que começou aí a sua segunda vida?

Aquilo que eu vivi foi um parto, com toda a imagem do parto: da escuridão para a luz, através de um corredor. E depois ver os faróis dos carros, o meu pai e a minha mãe. Só saímos no dia 27, de Caxias.

Tudo isso deve ser motivo de grande curiosidade para os mais novos…

Depois começa a conversa e eles insistem muito. Agarram-se muito à questão da tortura, do que é estar preso. Já arranjei alguns “truques” para contar. Explicar como era viver num espaço de 1,10 m por 1,70, o tempo todo.

Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de km da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente…ou não?

Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. No meu livro “A Senhora lhe Pague”, mostro o tipo de influência que pode ter provocado Fátima aqui nos arredores. Há uma povoação aqui, o Casal Novo, onde uma família criou a primeira indústria da mendicidade à volta de Fátima. E eu inventei uma história a partir daí… O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro.

Foi lá, à Cova da iria?

Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: ‘eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais’. Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) – ‘pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida.

E foi o que lhe aconteceu?

Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem – para evitar o ridículo – pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha…que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?

Eu li muito sobre isso e escrevi alguma coisa. Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta…a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão…e numa primeira fase é reticente, muito no registo ‘se isto der…logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos”

O Sérgio Ribeiro foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação  tinha com ele?

Havia uma revista que se publicava em Portugal – as Seleções de Rider’s Diget – que tinha uma secção chamada “o meu tipo inesquecível”. Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, que era um amigo excecional.

Porquê?

Para já era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana – que mais tarde se ligou à Maçonaria. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E calhou-lhe em sorte ser o administrador do concelho de Ourém naquela altura…

E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Trouxe-os, deu-lhes de comer e dormida, assistiram a uma procissão da varanda do enfermeiro Batalha, para evitar que o dia 13 fosse o ajuntamento anunciado. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção.  Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao cinema S. Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem…

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar “é mentira!”. Isto no tempo do fascismo… na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele “casamento” Salazar-Cerejeira. Quem quer ter uma perspetiva histórica, vê que há uma fase inicial entre 1917-1930 (em que a igreja toma posição, lentamente, enquanto ia comprando terrenos à volta). Depois é a fase a seguir aos anos 30 em que é a Igreja e o Estado Novo; vem a fase do anticomunismo, com o Papa Pio XII, com o aproveitamento da mensagem de Fátima, já firmada com o aval da Igreja, e com todo o apoio político do fascismo. A terceira fase é a da universalidade, a peregrinação da imagem pelo mundo todo, é a mensagem do terceiro segredo, é o anticomunismo que ganha grande força.

Mas em que medida foi ele [Artur Oliveira Santos] tão importante para si?

Nunca mais me esqueci de uma lição de política que me deu. Quando nos anos 40 o Churchill vai a eleições e perde – ele, a falar comigo, com uma paciência evangélica, quase – explicou-me minuciosamente o que eram as eleições, o que era o Partido Trabalhista, o que eram os trabalhadores com o seu sindicato; que o Churchill era um reacionário mas tinha tomado uma posição progressista contra o fascismo. E tive ali uma espécie de lição condensada que foi muito iniciática.

Até politicamente ele foi uma figura importante para si?

Importantíssima. Na minha formação política e humana. Tenho várias fotografias em que estou ao colo dele. Por isso é indignante para mim ouvir falar dele de outra forma. Felizmente há netos dele, como é o João Santos, que vive no Algarve, e me telefona de vez em quando a perguntar como estão as coisas. Preocupado com a imagem do avô. Houve uma coisa que se conseguiu, no entanto: o museu municipal de Ourém, que é a reconstituição da Casa do Administrador, onde estiveram os pastorinhos. Essa batalha foi ganha. Mas em contrapartida, ligado ao centenário das aparições, a Câmara de Ourém reconstituiu a antiga prisão, onde colocou uma carta da Lúcia, dizendo que esteve naquela prisão. O que é falso.

Foi uma pequena batalha, dizia…

Sim, porque o grande projeto do meu pai era ligar Fátima ao concelho. Era isso e a pousada dos castelos de Ourém. Para mim são a oitava maravilha do mundo. Todo o turismo religioso vai para Tomar e passa por Ourém como cão por vinha vindimada. E o museu – desde que não fosse a consolidação da versão mentirosa – poeria ser um ponto interessante de paragem.

Parece-lhe que o Artur de Oliveira Santos tinha a consciência dessa dupla interpretação dos seus atos?

Tinha. E sofria com isso. Ele escreveu um artigo no jornal República muito importante, em que ele conta o que passou.

Como é que olha para o fenómeno da comemoração do centenário?

Estava à espera disto, não me surpreende literalmente nada. Já há uns anos escrevi para a revista Vértice sobre isso, dizendo que iria haver dois centenários muito importantes: o de Fátima e o da Revolução Soviética. São duas coisas que, na minha perspetiva, têm a ver como a historia da humanidade se vai desenrolando. Assim como daqui a 100 anos iremos viver o centenário de um momento de rutura, que pode ser amanhã se o Trump quiser.

A história repete-se?

Estamos sob um barril de pólvora. A história não se repete, mas estamos numa fase em que há muita similitude com os anos 30. Assim como 1917 foi um momento de salto, no processo histórico. Na nossa curtíssima existência, se não nos colocamos num processo histórico, centenário, milenário não percebemos nada.

Como é que foi acompanhando este crescimento da vila e ( desde há 20 anos) cidade de Fátima?

Depende de que por ponta lhe pegar. Do ponto de vista de afirmação do que é uma estratégia de imposição do tipo ideológico, acompanhei com imensas preocupações. Do ponto de vista económico com imensas preocupações também, mas de outro tipo. É claro que o concelho de Ourém poderia beneficiar alguma coisa, pragmaticamente, de Fátima, mas tem sido muito prejudicado, na minha opinião. O benefício tem sido desviado para outros lados. Não há uma abordagem do turismo religioso que seja racional. Quando se fala dele como questão económica, não é endogeneizado, trazido para dentro as vantagens do que esse local provocou. A vinda deste Papa justificou que se fizessem vários ajustes diretos. Mas o papa chega no dia 12 de maio e ainda não começaram as obras…tudo isto é irracional.

Continua a exercer a sua atividade política aqui, em Ourém, onde integra a Assembleia Municipal. Quantos votos teve, nas últimas eleições?

Nas últimas autárquicas tive perto de dois mil votos. Temos um problema, aqui. O partido consegue 600. Eu sou considerado o homem do partido. Dou-me muito bem com toda a gente. Mas os votos são sobretudo da sede do concelho. Houve um ano em que insisti muito na campanha. Fiz uma coisa que não gosto de fazer, fiz campanha! Houve uma senhora aqui vizinha que disse: ‘ó menino Serginho, desta vez votei em si, que Deus me perdoe’. Ela votou em mim, mas em pecado!

 

Com a vinda do Papa, alguns amigos lhe pediram para ficar em sua casa?

Desta vez não. À medida que os anos vão passando, as amizades também vão sendo mais seletivas. Alguns que poderiam vir, já morreram. Eu sinto-me um bocado órfão de amigos. Muitos vão desaparecendo.

É também por essa noção de preservar a memória que quer deixar a Ourém o legado do seu pai e toda a sua biblioteca?

O meu pai foi uma figura tutelar para mim. Daí a minha intenção de assinar o protocolo com Câmara para criar o Centro de Documentação Joaquim Ribeiro. O que tenho em casa é só uma parte, fora o que está aí numa adega de um vizinho, com a documentação do Parlamento Europeu.

Quantos anos lá esteve?

Entre 1990 e 2000 e 2004-2005. Estive na comissão monetária que criou o euro, e tive o enorme prazer de votar contra o euro, com argumentos que ouço agora os outros dizer. Naquela altura diziam que eu era louco.

Foi preciso uma dose de loucura pra ser comunista aqui?

Eu sinto-me daqui, sempre senti, mas para a maioria das pessoas eu não era daqui, era o menino que vinha de férias.

Até os poucos candidatos que o partido aqui consegue ter são maioritariamente católicos, é assim?

Faz parte dos nossos estatutos a liberdade religiosa, não se põem reservas. É verdade que temos uma ideologia que por vezes entra em contradição. Mas a vida é feita de contradições. Quer maior contradição que essa de dizer “não houve aparições, houve visões”? E então os videntes são canonizados a partir de um processo que é mais do que discutível? E um papa como o papa francisco sujeita-se ao ridículo de vir canonizar duas crianças a partir de processos que são ridículos?

Tem alguma admiração por ele?

Tenho alguma admiração por coisas que ele tem dito.  Eu gosto de discutir estas questões. Mas quando me dizem que Fátima não é dogma…eu que sou contra todos os dogmas fico muito satisfeito. Mas depois o tratamento que se dá à crença é dogmático. Eu gostava de assistir a sessões de catequese e distinguir entre dogma e crença, entre visão e aparição.

Vive aqui há vários anos e já aqui escreveu vários livros. Quantos, ao todo?

 

Vou gastando as minhas poupanças em fazer livros. Já publicou mais de 40, o último foi este ano, chama-se “25 de abril e depois”. Eu acho que vivo aqui desde sempre. Quando fui para o Parlamento Europeu deixei de viver em Lisboa. Mas não passei a viver nem em Estrasburgo nem em Bruxelas. Passei a viver em Ourém, no Zambujal. Saía daqui à segunda-feira e voltava à sexta.

Vai a Fátima com frequência?

Que remédio tenho eu de ir a Fátima. É a maneira e passar para a auto-estrada…

Ainda acha que deveria ser concelho?

Claro. Foi uma coisa que defendi em tempos, juntamente com todas as forças políticas, a criação do município de Fátima. Esteve aprovada e foi vetada pelo Jorge Sampaio. Eu sempre disse que estava a correr-se um risco muito grande, porque o processo estava a ser mal conduzido. Fátima deveria ser um concelho não na lei geral mas pelo seu caso específico: uma terra que tem 9 mil habitantes e milhões de visitantes. Isto cria situações de gestão autárquica que tem que ser específica. Continua a justificar-se. Se a partir da concordata as receitas da Igreja estão isentas de IMI, como é que a gestão autárquica pode fazer face a esta especificidade? E por isso isto tinha de ser tratado com o mínimo de racionalidade. Mas em Fátima nada tem racionalidade.

 

 

 

» Sérgio Ribeiro está à beira dos 81 anos. Economista de formação, foi professor e jornalista – trabalhou no Diário de Lisboa durante alguns anos, na secção de economia. « » Foi deputado comunista no Parlamento Europeu durante 12 anos

»»Militante do PCP desde muito novo, estava preso em Caxias no 25 de Abril de 1974.

Tem dois filhos e três netos. Já publicou mais de 40 livros.

*entrevista publicada a 5 de maio de 2017 no Diário de Notícias. Fotografia de Rui Miguel Pedrosa.

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