Era verão, quando a Patrícia me contou aquela triste notícia. O tempo gelou naquele instante, como se a má-nova fosse com algum dos nossos, da nossa família. Na verdade, era. O Dr. Peixoto era um dos nossos desde aquele outro verão de ’99, quando subimos até ao terceiro andar do edifício da avenida, carregados com mais de 4 kg de João na Maxi-Cosi e toneladas de dúvidas sobre sons, cheiros, sonos e banhos, longe ainda do buraco das febres e das ites todas. Era Agosto e o doutor estava de férias, mas a Patrícia – tantas vezes escudo e bálsamo daqueles como nós, nas horas aflitas – prontificou-se a pesar o nosso menino todas as semanas, até que fosse setembro e ele voltasse ao trabalho. No livrinho azul que agora está arquivado regista-se para sempre a letra, a 9 de setembro, três dias antes de completarmos um mês de pais, a minha cicatriz já em bom estado, as dúvidas que jorravam na hora da mama. Naquele tempo ainda não googlávamos as caras e eu nunca tinha visto sequer uma fotografia dele. Quando entrámos no consultório, saltou a imagem de marca que haveria de nos acompanhar o resto da vida: o olhar que sorria. Em tantos anos, só por uma vez o vi sério, preocupado, mesmo quando nos tentava tranquilizar com a boca, enquanto os olhos paravam de sorrir. Não era nada, afinal, nada de grave. Mas naquela primeira vez o Dr. José Carlos Peixoto desmontou toda o (meu) (pré)conceito sobre pediatras de bata branca que nos chamam de mãe, como se todas fossem iguais. Ele sabia – como poucos – que somos todas diferentes, como os filhos que temos. Agia sempre da mesma maneira para respeitar a diferença de cada um, soube-o com o passar do tempo. Nesse dia pegou no João ao colo, e ficou com ele ali, entre as mãos, à secretária, sem pressas nem receitas escritas. Era com o coração que o Dr Peixoto falava. Quis saber tudo, sobre o parto, sobre nós e os hábitos que começavam a fazer o pequeno monge de 5 kg que tinha ali nas mãos. Rimos muito ali dentro daquele consultório, mesmo quando tratávamos de assuntos tão sérios, anos depois, quando chegou a adolescência. Mas naquele setembro fresco, tudo não passava de futuro, saúde e vida para todos (incluindo nós, os avós e bisavós, e ele). Depois veio o inverno, a casa da ama, o meu trabalho, uma gincana de vírus, viroses e bactérias, a dolorosa lei da vida que nos separa dos filhos quando nenhum de nós quer. As minhas angústias vertidas na secretária, os desenhos que ele fazia para me explicar a ordem natural das coisas, a importância dos afectos, quando ainda não se falava dela publicamente. E depois a incerteza de um irmão, que o João pedia tanto, e que nunca mais acontecia.

Peixoto! Vou ter uma irmã!

Quando já todos parecíamos resignados, ele vibrou com a boa nova naquela primavera, quase uma década passada do nosso primeiro encontro. Recomendou-me mil cuidados, naquela fase em que estava. Tivemos todos, mas a Maria Leonor era teimosa desde a existência e assim veio ao mundo, um mês antes do previsto. E então fomos todos, em cortejo, nesse Junho de 2008, festejar com ele na primeira consulta, aquele raro momento em que pai e filho-lagartos concordavam com tudo menos com a conversa do futebol, e trocavam cromos e mimos com ele. Por obra do destino e de uma virose precoce, acabámos por nos encontrar mais vezes com a drª Luísa, de modo que cada um guardou para si um pediatra diferente, troncos da mesma raiz.

Certa vez emocionei-me com aquele registo confidência que o meu filho tinha com ele, a quem tratou sempre por “tu”, até à última consulta, há uns dois ou três anos.

– João, podes vir cá até tu quereres, rapaz.

Não foi esse o final da nossa história. Em Julho deste ano, a Patrícia disse-me que estava muito mal. Que não havia nada a fazer. Mas quem tanto se dedicou a salvar a vida dos outros tinha que ter esperança, e agarrou-se a ela. Que talvez não fosse bem assim. Que afinal estava melhor. Quem sabe.

Faz hoje um mês, a notícia da sua morte caiu-me no feed no meio de uma formação, longe da cidade que também foi sua, porque aqui ajudou a crescer várias gerações. Naquele dia não consegui escrever, nos que se seguiram também não, à conta de um dezembro-natal para o mundo e para os jornais. Mas o mínimo que posso fazer para lhe agradecer é isto. Dizer-lhe que foi tão importante para nós, enquanto família, que o imaginamos a sorrir atrás da nuvem com o mesmo brilho nos olhos que passava em cada receita, no carinho de cada desenho no papel, na era pré-emoji por ele inventada. Que o mundo da nossa velha infância não será o mesmo sem ele, mesmo que pareça. Que é injusto vê-lo partir tão cedo, que haveria de estar cá, à distância de um telefonema, de uma porta entreaberta, para nos fazer “crescer saudável, olhar o mundo influenciar a vida”.

Para sempre.

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