sergio ribeiro

No dia em que se assinalaram 43 anos da libertação (a 27 de Abril), recebeu o DN na sua casa de Zambujal, Ourém, a seis km de Fátima. Foi íntimo de Artur de Oliveira Rodrigues, o administrador do concelho às vezes retratado pela história como “um facínora”, o que lhe causa enorme revolta. O pai, Joaquim Ribeiro – que dará nome a um Centro de Documentação – assistiu aos acontecimentos de 13 de outubro de 1917 e garantia nada ter visto. O antigo eurodeputado comunista confessa admiração “por algumas coisas que o Papa Francisco diz”, mas considera “ridículo” que venha canonizar duas crianças “por terem tido visões”.

Quando combinámos esta entrevista estava em Fátima. Podemos saber o que foi lá fazer?

Estava no Colégio do Sagrado Coração de Maria. Fui lá pela 13ª vez consecutiva. Convidaram-me uma vez, parece que não desagradei às freiras…e todos os anos me convidam. No ano passado houve um pequeno incidente com um pai que não gostou que eu tivesse sido convidado, e escreveu ao colégio a dizer que não deviam convidar gente como eu. Não sei porquê…

Gente comunista?

Sim…escreveu uma carta um pouco complicada, a que eu respondi em termos que acho civilizados. E este ano não esperava ser convidado.

Mas foi na mesma.

…e foi muito agradável ir lá e estar com os miúdos.

Que idade tinham?

13 anos, na  sua maioria. Estavam ali à minha frente e eu a lembrar-me dos primeiros que me ouviram ali, e que agora têm 26 anos. É uma experiência muito curiosa. Ontem fui à escola de Atouguia. Também fui ao Centro Escolar da Cova da Iria. Já percorri o concelho todo, bisto.

E nesses encontros o que procura transmitir aos miúdos?

Duas coisas: primeiro, que na idade deles comecei a olhar à minha volta e via coisas de que não gostei e tentei fazer alguma coisa para mudar. Mas como nessa altura não havia liberdade, só opressão e perseguição, sofri as consequências. Foram desagradáveis, com prisão, com tortura, com morte, com assassinatos de amigos…[é o que vou relatando aos miúdos em linguagem que procuro acessível] mas que me deram uma enormíssima alegria… ter estado preso no 25 de abril e ter saído para a liberdade. Ter nascido segunda vez.

Considera que começou aí a sua segunda vida?

Aquilo que eu vivi foi um parto, com toda a imagem do parto: da escuridão para a luz, através de um corredor. E depois ver os faróis dos carros, o meu pai e a minha mãe. Só saímos no dia 27, de Caxias.

Tudo isso deve ser motivo de grande curiosidade para os mais novos…

Depois começa a conversa e eles insistem muito. Agarram-se muito à questão da tortura, do que é estar preso. Já arranjei alguns “truques” para contar. Explicar como era viver num espaço de 1,10 m por 1,70, o tempo todo.

Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de km da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente…ou não?

Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. No meu livro “A Senhora lhe Pague”, mostro o tipo de influência que pode ter provocado Fátima aqui nos arredores. Há uma povoação aqui, o Casal Novo, onde uma família criou a primeira indústria da mendicidade à volta de Fátima. E eu inventei uma história a partir daí… O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro.

Foi lá, à Cova da iria?

Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: ‘eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais’. Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) – ‘pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida.

E foi o que lhe aconteceu?

Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem – para evitar o ridículo – pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha…que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?

Eu li muito sobre isso e escrevi alguma coisa. Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta…a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão…e numa primeira fase é reticente, muito no registo ‘se isto der…logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos”

O Sérgio Ribeiro foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação  tinha com ele?

Havia uma revista que se publicava em Portugal – as Seleções de Rider’s Diget – que tinha uma secção chamada “o meu tipo inesquecível”. Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, que era um amigo excecional.

Porquê?

Para já era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana – que mais tarde se ligou à Maçonaria. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E calhou-lhe em sorte ser o administrador do concelho de Ourém naquela altura…

E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Trouxe-os, deu-lhes de comer e dormida, assistiram a uma procissão da varanda do enfermeiro Batalha, para evitar que o dia 13 fosse o ajuntamento anunciado. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção.  Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao cinema S. Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem…

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar “é mentira!”. Isto no tempo do fascismo… na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele “casamento” Salazar-Cerejeira. Quem quer ter uma perspetiva histórica, vê que há uma fase inicial entre 1917-1930 (em que a igreja toma posição, lentamente, enquanto ia comprando terrenos à volta). Depois é a fase a seguir aos anos 30 em que é a Igreja e o Estado Novo; vem a fase do anticomunismo, com o Papa Pio XII, com o aproveitamento da mensagem de Fátima, já firmada com o aval da Igreja, e com todo o apoio político do fascismo. A terceira fase é a da universalidade, a peregrinação da imagem pelo mundo todo, é a mensagem do terceiro segredo, é o anticomunismo que ganha grande força.

Mas em que medida foi ele [Artur Oliveira Santos] tão importante para si?

Nunca mais me esqueci de uma lição de política que me deu. Quando nos anos 40 o Churchill vai a eleições e perde – ele, a falar comigo, com uma paciência evangélica, quase – explicou-me minuciosamente o que eram as eleições, o que era o Partido Trabalhista, o que eram os trabalhadores com o seu sindicato; que o Churchill era um reacionário mas tinha tomado uma posição progressista contra o fascismo. E tive ali uma espécie de lição condensada que foi muito iniciática.

Até politicamente ele foi uma figura importante para si?

Importantíssima. Na minha formação política e humana. Tenho várias fotografias em que estou ao colo dele. Por isso é indignante para mim ouvir falar dele de outra forma. Felizmente há netos dele, como é o João Santos, que vive no Algarve, e me telefona de vez em quando a perguntar como estão as coisas. Preocupado com a imagem do avô. Houve uma coisa que se conseguiu, no entanto: o museu municipal de Ourém, que é a reconstituição da Casa do Administrador, onde estiveram os pastorinhos. Essa batalha foi ganha. Mas em contrapartida, ligado ao centenário das aparições, a Câmara de Ourém reconstituiu a antiga prisão, onde colocou uma carta da Lúcia, dizendo que esteve naquela prisão. O que é falso.

Foi uma pequena batalha, dizia…

Sim, porque o grande projeto do meu pai era ligar Fátima ao concelho. Era isso e a pousada dos castelos de Ourém. Para mim são a oitava maravilha do mundo. Todo o turismo religioso vai para Tomar e passa por Ourém como cão por vinha vindimada. E o museu – desde que não fosse a consolidação da versão mentirosa – poeria ser um ponto interessante de paragem.

Parece-lhe que o Artur de Oliveira Santos tinha a consciência dessa dupla interpretação dos seus atos?

Tinha. E sofria com isso. Ele escreveu um artigo no jornal República muito importante, em que ele conta o que passou.

Como é que olha para o fenómeno da comemoração do centenário?

Estava à espera disto, não me surpreende literalmente nada. Já há uns anos escrevi para a revista Vértice sobre isso, dizendo que iria haver dois centenários muito importantes: o de Fátima e o da Revolução Soviética. São duas coisas que, na minha perspetiva, têm a ver como a historia da humanidade se vai desenrolando. Assim como daqui a 100 anos iremos viver o centenário de um momento de rutura, que pode ser amanhã se o Trump quiser.

A história repete-se?

Estamos sob um barril de pólvora. A história não se repete, mas estamos numa fase em que há muita similitude com os anos 30. Assim como 1917 foi um momento de salto, no processo histórico. Na nossa curtíssima existência, se não nos colocamos num processo histórico, centenário, milenário não percebemos nada.

Como é que foi acompanhando este crescimento da vila e ( desde há 20 anos) cidade de Fátima?

Depende de que por ponta lhe pegar. Do ponto de vista de afirmação do que é uma estratégia de imposição do tipo ideológico, acompanhei com imensas preocupações. Do ponto de vista económico com imensas preocupações também, mas de outro tipo. É claro que o concelho de Ourém poderia beneficiar alguma coisa, pragmaticamente, de Fátima, mas tem sido muito prejudicado, na minha opinião. O benefício tem sido desviado para outros lados. Não há uma abordagem do turismo religioso que seja racional. Quando se fala dele como questão económica, não é endogeneizado, trazido para dentro as vantagens do que esse local provocou. A vinda deste Papa justificou que se fizessem vários ajustes diretos. Mas o papa chega no dia 12 de maio e ainda não começaram as obras…tudo isto é irracional.

Continua a exercer a sua atividade política aqui, em Ourém, onde integra a Assembleia Municipal. Quantos votos teve, nas últimas eleições?

Nas últimas autárquicas tive perto de dois mil votos. Temos um problema, aqui. O partido consegue 600. Eu sou considerado o homem do partido. Dou-me muito bem com toda a gente. Mas os votos são sobretudo da sede do concelho. Houve um ano em que insisti muito na campanha. Fiz uma coisa que não gosto de fazer, fiz campanha! Houve uma senhora aqui vizinha que disse: ‘ó menino Serginho, desta vez votei em si, que Deus me perdoe’. Ela votou em mim, mas em pecado!

 

Com a vinda do Papa, alguns amigos lhe pediram para ficar em sua casa?

Desta vez não. À medida que os anos vão passando, as amizades também vão sendo mais seletivas. Alguns que poderiam vir, já morreram. Eu sinto-me um bocado órfão de amigos. Muitos vão desaparecendo.

É também por essa noção de preservar a memória que quer deixar a Ourém o legado do seu pai e toda a sua biblioteca?

O meu pai foi uma figura tutelar para mim. Daí a minha intenção de assinar o protocolo com Câmara para criar o Centro de Documentação Joaquim Ribeiro. O que tenho em casa é só uma parte, fora o que está aí numa adega de um vizinho, com a documentação do Parlamento Europeu.

Quantos anos lá esteve?

Entre 1990 e 2000 e 2004-2005. Estive na comissão monetária que criou o euro, e tive o enorme prazer de votar contra o euro, com argumentos que ouço agora os outros dizer. Naquela altura diziam que eu era louco.

Foi preciso uma dose de loucura pra ser comunista aqui?

Eu sinto-me daqui, sempre senti, mas para a maioria das pessoas eu não era daqui, era o menino que vinha de férias.

Até os poucos candidatos que o partido aqui consegue ter são maioritariamente católicos, é assim?

Faz parte dos nossos estatutos a liberdade religiosa, não se põem reservas. É verdade que temos uma ideologia que por vezes entra em contradição. Mas a vida é feita de contradições. Quer maior contradição que essa de dizer “não houve aparições, houve visões”? E então os videntes são canonizados a partir de um processo que é mais do que discutível? E um papa como o papa francisco sujeita-se ao ridículo de vir canonizar duas crianças a partir de processos que são ridículos?

Tem alguma admiração por ele?

Tenho alguma admiração por coisas que ele tem dito.  Eu gosto de discutir estas questões. Mas quando me dizem que Fátima não é dogma…eu que sou contra todos os dogmas fico muito satisfeito. Mas depois o tratamento que se dá à crença é dogmático. Eu gostava de assistir a sessões de catequese e distinguir entre dogma e crença, entre visão e aparição.

Vive aqui há vários anos e já aqui escreveu vários livros. Quantos, ao todo?

 

Vou gastando as minhas poupanças em fazer livros. Já publicou mais de 40, o último foi este ano, chama-se “25 de abril e depois”. Eu acho que vivo aqui desde sempre. Quando fui para o Parlamento Europeu deixei de viver em Lisboa. Mas não passei a viver nem em Estrasburgo nem em Bruxelas. Passei a viver em Ourém, no Zambujal. Saía daqui à segunda-feira e voltava à sexta.

Vai a Fátima com frequência?

Que remédio tenho eu de ir a Fátima. É a maneira e passar para a auto-estrada…

Ainda acha que deveria ser concelho?

Claro. Foi uma coisa que defendi em tempos, juntamente com todas as forças políticas, a criação do município de Fátima. Esteve aprovada e foi vetada pelo Jorge Sampaio. Eu sempre disse que estava a correr-se um risco muito grande, porque o processo estava a ser mal conduzido. Fátima deveria ser um concelho não na lei geral mas pelo seu caso específico: uma terra que tem 9 mil habitantes e milhões de visitantes. Isto cria situações de gestão autárquica que tem que ser específica. Continua a justificar-se. Se a partir da concordata as receitas da Igreja estão isentas de IMI, como é que a gestão autárquica pode fazer face a esta especificidade? E por isso isto tinha de ser tratado com o mínimo de racionalidade. Mas em Fátima nada tem racionalidade.

 

 

 

» Sérgio Ribeiro está à beira dos 81 anos. Economista de formação, foi professor e jornalista – trabalhou no Diário de Lisboa durante alguns anos, na secção de economia. « » Foi deputado comunista no Parlamento Europeu durante 12 anos

»»Militante do PCP desde muito novo, estava preso em Caxias no 25 de Abril de 1974.

Tem dois filhos e três netos. Já publicou mais de 40 livros.

*entrevista publicada a 5 de maio de 2017 no Diário de Notícias. Fotografia de Rui Miguel Pedrosa.

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#Pedro Santa Marta

pedro santa marta

“Era um homem extraordinário, o Padre Kondor”, há de dizer mais tarde Pedro Santa Marta, o engenheiro químico de profissão, que em junho comemora 40 anos ao serviço da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima. Alentejano de nascimento, foi parar ao Ribatejo pela via do casamento com uma médica. “E logo no ano em que me casei, a minha mulher veio acompanhar um grupo na peregrinação dos doentes. Estava ali sentado junto à Capela de Nossa Senhora das Dores, à espera dela, quando um irmão meu que já era servita me perguntou se não queria ajudar. Puseram-me uma braçadeira amarela no braço, e foi assim, até hoje.” Era junho de 1977, tinha apenas 25 anos, e começou aí uma caminhada de voluntariado que já o levou a todos os serviços da organização nascida em 1924. Agora preside a direção, mas já coordenou os serviços de saúde, por exemplo, que os peregrinos conhecem como o “lava-pés”, onde médicos e enfermeiros tratam das mazelas causadas pelas longas caminhadas até Fátima. “É um serviço destinado aos que chegam a pé. Fazem-se massagens, desinfetam-se feridas, mas é o serviço que tem notado menos afluência de pessoas nos últimos anos”, revela Pedro Santa Marta, justificando a mudança com os sinais dos tempos: “Hoje as pessoas vêm mais organizadas e com outros cuidados. Depois, ao longo do caminho, quer a Ordem de Malta quer a associação da Mensagem de Fátima dão muito apoio.” Apesar de voluntário, o trabalho dos servitas é feito de forma bastante organizada, em estreita articulação com o Santuário. “Recebemos muito mais do que damos”, considera o presidente, um entre os mais de 400 servitas que se distribuem pelas várias peregrinações ao longo do ano, e que passam por processos de seleção, formação e experiência. “Nós não somos melhores que os outros. É uma maneira que temos de servir, dentro da Igreja. Aqui não atendemos utentes, acolhemos peregrinos”, insiste Santa Marta, o homem que um dia, nessa peregrinação de 2000, durante a missa de João Paulo II, estava incumbido de acompanhar a irmã Lúcia à comunhão e trazê-la para o lugar. No final, depois das cerimónias, levava-a para o carro (a ela e à madre superiora do Carmelo), na parte de trás da basílica. Acabada a missa, começa a Procissão do Adeus. “O senhor padre Kondor disse: “Ó irmã, chegue-se à frente para ver melhor.” Há quem olhe para cima e grite “olha a Lúcia!” Veio tudo por aí acima. Apanhei o susto da minha vida. Estava apavorado, pois que a amassavam! Subimos as escadas. Não estava lá carro nenhum. Peguei nelas e meti-as na basílica.” E ali ficaram fechadas, até que o servita encontrasse o carro e as conduzisse ao Carmelo. No mês seguinte, quando chegou a Fátima, Pedro Santa Marta tinha uma carta da madre e lá dentro um terço feito pela irmã Lúcia, que durante a viagem não lhe dissera uma única palavra.

Nós não somos melhores que os outros. É uma maneira que temos de servir, dentro da igreja, onde há dezenas de movimentos. Aqui não atendemos utentes, acolhemos peregrinos. As nossas duas filhas não quiseram, e nunca forçámos. Fazemos aqui o nosso trabalho, o mais visível é a organização das cerimónias no recinto. Quando comecei a vir, quase não havia ninguém ao fim de semana. Agora se vier aqui em Junho, Julho, Agosto, encontra mais gente do que nas peregrinações aniversárias de julho ou setembro. A vida está mais complicada. Antigamente havia mais facilidade em vir do que hoje, há pessoas que só têm disponibilidade para colaborar nos fins de semana. Hoje em dia sou mais ou menos dono do meu tempo, mas nem sempre foi assim. A minha entrada para os Servitas coincidiu com uma mudança de emprego. Quando entrei para a empresa disse logo como gostava que, de maio a outubro, nos dias 12 e 13, pudesse tirar dias de férias. Hoje é muito complicado, sobretudo para os mais novos. Para a geração dos 20 e 30, é terrível”.

A maioria dos servitas são “pessoas com mais idade”, mas ainda há jovens que se juntam ao movimento. O que é preciso ter ou ser?Ter fé. Ser devoto de Nossa senhora. E da mensagem de Fátima. Procurar cumprir tudo o que ela pediu. E ter vontade de ajudar os outros”.

E quem são, afinal? “Somos um conjunto de cristãos, católicos, devotos a Nossa Senhora e à mensagem de Fátima que vem a Fátima voluntariamente prestar assistência aos peregrinos. A actividade exerce-se essencialmente nas peregrinações aniversarias de Maio a Outubro. No posto de socorro e no ‘lava pés’. É o serviço que dá apoio aos retiros de doentes, as equipas têm os servitas e os diocesanos”.

Pedro Santa Marta preside à direcção, um dos vários órgãos da associação. Há ainda a assembleia geral e o conselho de disciplina, para analisar as situações de irregularidade. “Nenhum de nós é santo e às vezes há servitas em situações irregulares. Pessoas que nunca mais cá puseram os pés. Somos mais de 400 de todo o país e um espanhol. No ativo cerca de 300”.

A origem dos Servitas remonta aos primórdios das aparições.Nas memórias da irmã Lúcia, no relato da aparição de Setembro, pode ser-se a descrição. “Quando se dirigiam para a Cova da Iria, já ela fala nuns senhores que ajudavam os peregrinos que vinham, com mais dificuldades. Foram os primeiros servitas. D. José Alves Correia da Silva, bispo na época, sugeriu que se organizassem. Em 1924 os homens e no ano seguinte as senhoras. São voluntários, com todos os tipos de profissão”.

No final do ano a associação envia a todos s servitas uma folha para preencherem com a sua disponibilidade nas diversas atividades e peregrinações. Fazem-se as convocatórias. “Para este mês de maio, toda a gente mostrou disponibilidade…mas os servitas têm que dar no mínimo disponibilidade para 3 peregrinações por ano e uma para fim de semana ou retiro de doentes. Há quem dê mais”.

Os servitas de Fátima estão agora a informatizar e construir o site. “Temos diferentes serviços aqui entro. Os homens têm umas correias –  inspirados nos hospitaleiros de Lourdes, em França – que serviam para ajudar a transportar as macas dos doentes. Hoje já não é para isso, mas continua a ser uma imagem de marca. Os médicos e enfermeiros têm uma bata branca com braçadeira amarela. As senhoras um véu com a cruz de Cristo. Ajudam junto à capelinha quem faz as suas promessas de joelhos”. Uma parte importante é o Serviço de admissão de doentes, das pessoas que vêm a 13 receber a bênção do santíssimo, na colunata. “Há pessoas que vêm à procura de um lugarzinho para se sentarem. Este maio será complicado. As pessoas têm que se acreditar. Temos os ficheiros, muitas trazem documentos dos seus médicos”.

Além do episódio da irmã Lúcia, Pedro Santa Marta guarda muitos, de uma vida devota a Fátima e aos outros. “Há muitos anos havia uma barraca de campanha grande, junto à cruz alta. Estávamos a acompanhar as pessoas. E vem um rapaz de camuflado que ia fazer a promessa de rastos. Junta-se sempre muita gente, nessas alturas. Procuramos dizer às pessoas que talvez fosse melhor falar com um senhor padre e  fazer outra coisa. Como as mães com os bebés ao sol;  convencer as pessoas que arranjem um peso igual ao das crianças, que a mãe dê a criança ao marido, para não apanhar sol…. Então o rapaz estava deitado no chão e olha para mim, quando eu lhe dei a sugestão. E diz-me ele:  ‘Ouça lá: eu andei dois anos em África a rastejar por causa dos terroristas e agora não posso rastejar por causa de Nossa Senhora’?”.

*Fátima, Março de 2017. Reportagem para o Diário de Notícias, fotografia de Paulo Cunha.

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Escrevo num ecrã que tem as marcas de um beijo que a Maria Leonor aqui deixou, numa das vezes em que se besunta com o meu batom mais forte. “É para te lembrares sempre de mim” – disse-me, quando confrontada com este e outros beijos que estão espalhados pela casa: na parede do corredor, na cozinha, no interruptor da casa de banho. Com o tempo, foi percebendo que a mãe não fica em casa a jogar no computador ou no tablet, tão pouco a ver séries de manhã à noite. Demorou até compreender que também se trabalha em casa (mais tarde perceberá que é muito mais complicado trabalhar em casa do que fora dela), até encaixar que de pouco lhe valia fazer o número da dor de barriga ou de cabeça para sair da escola e vir para casa. À segunda vez que a descarreguei na avó, percebeu. Por ora, é a única lá da sala a quem isso acontece, o que tornou a compreensão mais difícil. Também ajudou o facto de, amiúde, estar aqui a mãe a despachar notícias de última hora quando já devíamos estar a jantar. Mas a minha filha sofre do mesmo mal pós-moderno de toda uma geração que parece nascida de um chip, e por isso nunca aceitou muito bem que viver pendurada num computador e num telefone fosse um trabalho a sério. Só quando lhe mostro os textos impressos no jornal é que acredita. Temos aqui um problema, já sabíamos, todos nós – os jornalistas. O meu começa simultaneamente dentro de casa e no local de trabalho.

Depois do regresso às aulas, voltámos a uma espécie de normalidade: levantar cedo (não tão cedo como o madrugador João, que gosta de ir “com tempo”, para tomar café com os amigos…sim, eu tenho um filho que já toma café…), preparar o lanche, o pequeno-almoço, agarrar o dia com a melhor energia que conseguimos, despachá-la com o pai e ala, que se faz tarde. Às vezes sou eu que a vou buscar, a maioria delas num intervalo, que comporta tradicionais idas ao supermercado. Mas este ano conseguimos até ir ao parque…pelo menos enquanto for de dia. Quando não vamos, sei-a entretida com qualquer coisa naquele tempo bom, enquanto não volta à piscina e – sobretudo –  desde que não há trabalhos de casa. Foi a grande diferença nas nossas vidas. Acredito que devo agradecer para sempre ao Eduardo Sá ter perpetrado esse pequeno milagre. Depois de uma palestra que veio dar à comunidade docente, o Agrupamento decidiu acatar a sugestão e suspender radicalmente “os deveres”. Ninguém me disse que foi por causa disso, mas nem é preciso. Passei demasiados anos a grasnar contra os TPC para não assinalar a revolução, neste bloco de notas tantas vezes esquecido. Não era preciso irmos do 80 ao 8…mas…quando mal nunca pior, por isso deixamo-nos estar assim, a saborear o tempo, esse luxo que nos escapa. Para espanto (ou talvez não) dou com ela a ler muito mais, a querer mostrar-me com mais vontade o que ficou do dia na escola, e agora a falar inglês, essa novidade do 3º ano.

Sei que há um coro organizado que defende o contrário, e que confunde a defesa deste princípio com a falta de regras e de disciplina. Qualquer dia chamam-me anarquista e outras coisas que degeneram da “esquerdalha”. Que fique sempre claro: nos anos todos em que os professores dos meus filhos lhes mandaram trabalhos para casa, sempre o respeitei. Mesmo não os defendendo, ainda acho que o sapateiro não deve ir além da chinela, e por isso cada um deve saber qual o seu papel no universo da escola, mesmo nos dias em que o crepúsculo tinha muito pouco de romântico ou bucólico, com chatices, choros e exercícios, que terão contribuído zero para um melhor desempenho e “sucesso escolar”. Este não é o tempo das mães-donas-de-casa nem dos empregos das 9 às 5. É o tempo da precariedade, sobretudo. E a Escola deveria ser o primeiro lugar a percebê-lo, por lidar em primeira instância com os herdeiros desse modo de vida na corda bamba. Quando ouve, já não é mau.

Cá em casa podemos não perceber nada de metas e processos sistematizados, mas sabemos distinguir entre a vontade de ir para a escola e a falta dela, que faz toda a diferença (haverá muito mais a dizer, mas fica para depois). De resto, não fazemos questão de viver muito presos à normalidade. Seja lá isso o que for.

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Conhecemo-lo muito antes de nascer, mal se anunciou a inesperada gravidez da mãe, que nascera poucos meses antes de nos mudarmos para esta casa – faz agora 18 anos. Vimo-lo crescer na barriga dela, assistimos ao tsunami que aconteceu na porta do lado, depois disso, e que resultou numa família desfeita. Sempre preferi o barulho, porque só ele nos permite saborear o silêncio. Dos que vivem em silêncio, nunca sabemos o que esperar. Como aconteceu com a J., mãe do L, que naquele dia em que a mãe dela me pediu que lhe falasse, para a tentar convencer a (pelo menos) perceber as mudanças que a vinda de uma criança iria implicar na sua ainda tão curta vida, com a agravante de ter feito uma delicada cirurgia havia ainda pouco tempo. Para o resto da vida hei-de lembrar-me do silêncio, de como ocasionalmente levantava os olhos do ecrã do telemóvel para me dizer, com meio sorriso, “vai correr tudo bem”. E correu, até há dois dias. A mãe dela assimilou que “o mal estava feito”, aceitou a gravidez, acompanhou as consultas e ajudou a nascer o pequeno neto. Aos 40 anos a maioria das mulheres em Portugal está a ouvir pela primeira vez a palavra mãe. E a I. preparava-se para ouvir chamarem-lhe avó.

O L nasceu, há dois anos e nove meses, e tornou-se um príncipe lá em casa, herdando da mãe o silêncio: quase ainda não fala, mas chama mãe à avó. As ondas de choque daquele tsunami –  que vira do avesso a vida de uma família, quando uma adolescente engravida – às vezes ouviam-se no meio do silêncio. O menino precisava de conviver com outros iguais. Tal como a mãe, afinal, que no entanto não deixou de ser adolescente e achar que o mundo era dela, sem regras nem adultos a importunar. Os adultos já tinham, afinal, uma função: criar o pequeno L. No meio de um daqueles momentos em que os adolescentes medem forças com os pais (neste caso com as mães), a conversa azedou e ambas ficaram de costas voltadas e palavras mudas. A mãe continuou a fazer como lhe ensinaram: cozinhar, lavar, passar, tomar conta de. O pai continuou na sua vida, na nobre função de ganhar o sustento da família. Do pai do L, nunca mais se soube nada.

E então era preciso inscrever o menino na creche, colocá-lo em contacto com outros iguais. A mãe dele disse que não, porque estava quase a fazer 18 anos e ambos iriam embora.

Nunca acreditei, quando a avó mo dizia. Até que ontem soaram pancadas na minha porta, pancadas de aflição. “Lê isto”, disse-me a avó, em soluços. A J aproveitou uma ausência da mãe e pôs-se em marcha, com o filho. Deixou uma carta em que dizia saber “que ia doer muito”, mas “tinha de ser”. Era preciso avisar as autoridades de que havia um menor alegadamente em risco, levado para parte incerta.

E foi aí que chocámos (eu e a avó) de frente com a realidade, numa esquadra de polícia de uma cidade pacata, onde julgávamos que reinava a paz e o sossego, na calada da noite, a avaliar pelo silêncio, esse dissimulado.

Demorei horas, dias, para digerir o que ali se passou. Eu ao telefone com assistentes sociais, polícias e funcionários judiciais conhecidos, para ter a certeza de que era mesmo assim que tinha de ser feito. O “graduado de serviço” entre um telefone e um computador, a fazer o que sabe e o que pode, para acudir a tanta ferida: a menina com menos de 20 anos, grávida, vítima de violência doméstica; a menina de 14 a quem os pais maltratam física e psicologicamente, até chegar aos olhos e aos ouvidos dos vizinhos, a tia da segunda que liga para a esquadra e insulta o agente, o namorado da primeira que liga para a esquadra e insulta o agente, e o agente que tem de perceber a ocorrência, que diz que não pode escrever que o menor está em risco, que liga para a mãe do L e ela não atende, que manda um sms do seu telefone pessoal porque não pode mandar do telefone da polícia. Que está cansado, porque aquela noite de Agosto está a transbordar de feridas sociais. Não apareceu ali ninguém a fazer queixa de furtos ou assaltos. Ao meu lado, a avó do L chora, em soluços. Lá dentro, a menina de 14 anos chora baixinho, em soluços. Mais tarde, haverá de ser outra vez entregue aos pais. Como? “oh minha senhora, são os pais”…

Faço mais uns contactos e consigo o telefone do pai da J, avô do L. Não atende. Só quando chegarmos a casa haveremos de ter notícias: ele ligou entretanto à polícia e informou que a J e o menino estão com ele. Fiquei sem saber se o caso era dado como resolvido, para as autoridades, ou se seguia os trâmites da comissão de protecção a crianças e jovens em risco. “Sabe que ela é maior de idade…”, advertiu-me nessa noite uma fonte conhecedora do processo. Eu sei. Mesmo que continue a vê-la como criança, agora responsável por outra.

Naquela noite voltei para casa, terminei um texto, fechei uma edição de um suplemento que estava agendado para aquele serão. Ouvi a avó e o tio chorarem, pela noite dentro, na casa do lado. Lembrei-me do agente, da música dos Simpsons na televisão da esquadra, do som do auto-rádio que comunica com os que andam na rua, na cidade onde tudo parece dormir. Do semblante dos agentes, treinados para um mundo de polícias e ladrões, onde as assaltos acontecem na alma de cada um, no coração das pessoas. E percebi que fazem falta psicólogos e assistentes sociais por ali, que usem da força mental para estes dramas, em vez da outra, em vez dos “procedimentos legais” para registar “a ocorrência”. Seria preciso que cada um dos governantes levasse um banho de realidade destes para o sentir na pele. Mas como só vão às esquadras em dias de festa, tudo é alegria, tudo está no seu lugar, graças a Deus.

Não sabemos o que será do pequeno L. Nem o que vai ser de nós, neste país.

Pessoal e transmissível